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Corrupção

Pode uma sociedade desenvolvida e moderna conviver com a corrupção? A resposta não é fácil. Durante muito tempo, a corrupção foi essencialmente uma questão ética e moral com implicação muito forte nos costumes. Em muitos casos, construiu-se a ideia de que bastava afastar a mulher da coisa pública, para limitar o perigo da corrupção.

Hermínio Veiga da Silva
31 Jul 2012

Com o advento da república, o termo corrupção ganhou novo conceito, passando genericamente a ser um ato ou omissão, que sobrepõe o interesse privado em desfavor do interesse público.
Neste país, a maneira de pensar a política, infelizmente, é a do roubo, do furto. O político que faz algo errado é assimilado a um ladrão. Isso acarreta uma série de problemas sérios. O primeiro é a inexistência de uma noção do que seja responsabilidade pública.
Fala-se em reaver o dinheiro. Ora, o problema da corrupção pública vai além disso. Não é apenas o dano orçamental por obras inúteis, sobrecarregando todos e deixando de ser feito aquilo que é essencial. Há um dano ético de que não conseguimos precisar exatamente o valor. Temos uma fraqueza visível na nossa perceção do que é próprio à corrupção. Ou, tomando de outro modo, há sempre uma tentativa de desculpabilizar os “nossos”, resumida na célebre frase “Roubou, mas fez”. Se quisermos realizar um combate verdadeiro à corrupção, teremos que reativar o valor da ética e dos costumes, adaptados ao tempo atual, claro, e enquadrando nessa ética e costumes, o sentido da responsabilidade social, o uso de um bem que, mesmo privado, deve ter como primado o objetivo do bem comum.
Se retomarmos o combate da corrupção apenas nos bens materiais, esquecendo a ética e os costumes, não promoveremos uma ideia de serviço público centrada na comunidade e no interesse de todos. O combate à corrupção tem se ser centrado na ética e na moral pública. Quem corrompe ou se deixa corromper, semeia na sociedade doenças graves e de difícil cura: a desconfiança e o desânimo,
Até porque todos temos cons-
ciência de que a corrupção causa danos com efeitos multiplicadores, em todas as áreas da vida social. O dinheiro mal utilizado é fator de atraso, porque são hospitais, escolas e outros bens públicos que deixam de ser feitos ou deixam de ter os meios para um melhor funcionamento. Além disso, há um dano ético muito importante: a comunidade deixa de acreditar que é possível uma sociedade diferente. A confiança é um sentimento essencial para a construção de um mundo melhor. No nosso caso de um país, a confiança está posta em causa.
Neste momento a confiança é indispensável à recuperação do país. Sem esta, não conseguiremos dar o salto nem nos libertaremos da atuais dificuldades. As pessoas têm que sentir que os corruptos são efetivamente penalizados, que a justiça deixará de ter demasiados alçapões que permitem adiamentos dilatórios à medida da bolsa e da influência das pessoas acusadas de corrupção. O atual estado de ânimo da generalidade dos portugueses não é causado só pela austeridade, mas pela intuição de que, no que diz respeito à corrupção, nada mudou.
Acresce a isto uma espécie de corrupção de poder de classe. Pessoas ou grupos de pessoas que exercendo tipos de funções com alguma relevância social e económica valem-se dessa situação para conseguirem um tratamento privilegiado. Numa altura em que o país é chamado a um esforço suplementar exigido pela situação de emergência financeira que vivemos, esta fuga às responsabilidades é, quanto a mim, motivada por uma corrupção ética e moral. As pessoas perderam a noção do bem comunitário, pensando em exclusivo no seu próprio bem.
No tempo atual, a necessária austeridade só será bem aceite se assente em decisões eticamente inatacáveis, e se for sentida pelas pessoas como equitativa e justa. Infelizmente, existem demasiados exemplos em que, com as mais estapafúrdias desculpas, se abrem exceções, que beneficiam precisamente aqueles a quem a austeridade causaria menos dificuldades.
Não é razoável que a justiça seja tão lenta a tratar destas situações, nem é razoável a existência de tratamentos diferenciados nos sacrifícios pedidos. Resolver estas questões é meio caminho andado para a mobilização de todos. 




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