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Saudades revolucionárias

Mário Soares quer um novo governo. Diz que as manifestações populares expressam um mal estar generalizado da sociedade portuguesa mas não explicou, nem talvez saiba dizer, que não é esse o sentido de voto que as sondagens vão dizendo.

Paulo Fafe
30 Jul 2012

Ora, se o descontentamento pode ser orquestrado e as sondagens também, fica ao  sr. dr. Mário Soares ter de dizer a todos nós a razão por que optou por uma em detrimento da outra, isto é, qual é o seu barómetro favorito da popularidade do governo. Se as sondagens, se as arruaças. Para além disto, o que deve estar sempre presente é o bem nacional; pergunto: seria verdadeiramente oportuno entrarmos numa queda do atual Governo que prefigurasse desde logo umas novas eleições? Não foi o sr. dr. Mário Soares um dos paladinos das legislaturas completas, principalmente naquele tempo em que os governos pós PREC duravam  alguns meses? Depois, seria certo e seguro que a mudança do Governo fosse capaz de resolver,só por si, os problemas económicos e financeiros de Portugal? Será que os males que estamos a suportar terão apenas a marca made in Portugal ou, numa economia aberta como a nossa, o mal dos outros é também o nosso mal?  Uma agitação que a queda do atual Governo suscitaria, serviria mais os interesses de Portugal, ou serviria uma aspiração socialista desejosa e quiçá saudosa de voltar ao governo?  O povo está descontente: mais aperto, menos dinheiro, mais desemprego, menos emprego, menos futuro … quem poderia estar contente? Mas poderíamos estar melhor se lá estivessem aqueles que nos puseram nesta situação? Mário Sores tem direito de pensar como pensa, cada um pensa à medida dos seus ideais , tem o direito de dizer o que diz, estamos num país livre e que ele muito contribuiu para que o seja, mas também a nós, que temos miolos para pensa, cabe-nos o direito de divergir dos seus pensamentos. Só lamento que os canais de comunicação façam eco das palavras e pensamentos de Mário Soares e se não deem ao trabalho de colher pensamentos contraditórios. Porque,se assim fosse, poderíamos ficar com uma ideia dos que pensam divergente de Mário Soares. Não vem mal ao país o que diz e pensa Mário Soares, já “pregou de mais em alta tribuna, mas parece sentir-se no seu comentário um incentivo a mais arruaças aos governantes e ao presidente da república. Sinceramente Mário Soares rema ao contrário de muitos que desejam um consenso extenso; não encontro razões profundas ou sequer urgentes de um novo governo, este está a pagar dívidas e a tentar honrar o nome de Portugal, e não me parece curial pagar-lhe com a moeda da ingratidão. Poderia fazer melhor? Duvido. Poderia fazer de maneira diferente. Acredito que sim, porque sempre haverá na opção política a medida da garrafa cheia e da garrafa vazia.  Os portugueses têm-se portado duma maneira que irrita os da agitação – mas o povo é que é o verdadeiro juiz e este povo sabe que o mal não está cá dentro, apenas mora em sua grande maioria, lá fora onde os males são iguais se é que não são piores. Por isso sabe sofrer, por isso olha com olho turvo as arruaças e por isso repudia tendências excessivas mesmo que encapotadas em descontentamentos sociais.  Mudanças de governo, para quê? É tão inoportuno como mudar de abrigo no meio da tempestade. Por isso o grito de Mário Soares é um grito de saudades revolucionárias. Boas férias de agosto.




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