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Estados de espírito antagónicos

Por vezes, dou comigo a pensar se em desporto se joga com ou se joga contra (mesmo no voleibol ou no ténis, em que os adversários não se tocam). Aparentemente, dir-se-á que é a mesma coisa. Mas eu penso que jogar com implica uma atividade, um confronto entre duas equipas ou pessoas competindo sem ter em conta o resultado final, enquanto que, ao jogar contra, se luta por um resultado final que satisfaça uma das partes em competição.

Bernardino Costa
30 Jul 2012

Tenhamos como exemplo a final da Taça de Portugal em futebol realizada em maio último, entre a Académica e o Sporting, tido à priori como um duelo entre David e Golias, entre um clube com um modesto palmarés, até então uma única Taça de Portugal conquistada, precisamente a primeira, e um outro clube com um rico pecúlio desportivo, mesmo assim desejoso de o enriquecer com mais um troféu. Naturalmente que o vencedor ficou satisfeito (tanto que até deu cabo da taça), enquanto o vencido ficou dececionado, tanto mais quanto não estava a contar com o desfecho do jogo.
Ou tomemos em conta o recente Euro 2012, especialmente a partir dos quartos de final, quando começaram os jogos a eliminar. Em cada patamar era notório o contraste do estado de espírito entre vencedores e vencidos; e a ansiedade, esse contraste iam aumentando à medida que se jogava o patamar seguinte, as meias-finais e depois a final. O contraste entre vencedores e vencidos era-nos mostrado pelas imagens que passavam nas televisões: do lado dos primeiros, a euforia, o dar largas à alegria por terem ultrapassado o obstáculo, por terem derrotado o adversário; enquanto que do lado destes, dos segundos, surgia o desânimo, a tristeza, por vezes expressos através de lágrimas vertidas por terem sido vencidos. A alegria de uns era a tristeza de outros.
É uma frase que nada tem de anormal mas que me faz recuar quarenta e três anos, ao tempo em que cumpri uma comissão de serviço em África. Essa fase da minha vida é sabida de leitores que têm conhecimento de textos alusivos a esta situação incluídos no meu livro ”Histórias de um Professor e outros Quadros vivos” (editado pela Casa do Professor em Novembro de 2003); ou que têm a amabilidade de ler os meus escritos publicados aqui no Diário do Minho. A última vez que ao assunto me referi foi no artigo publicado em 18 de janeiro, página 16, com o título “Memória, um espelho retrovisor” quando escrevi que «Vi hoje um livro que fala da Luanda dos anos de 1960. Outro mundo de recordações o daquelas paragens. (…) Outras bem pelo contrário, algumas deveras traumatizantes, vividas no mato, que estão “armazenadas na reciclagem, que de quando em vez são “restauradas” mas que eu bem gostaria de “eliminar”, o que apenas sucederá se e quando a senectude me atacar. Imagens e momentos cuja catarse prefiro não fazer aqui e agora pois não é esse o alvo deste [daquele] escrito.”
É-o sim do presente escrito fazer uma referência à altura em que, após cerca de dezanove meses de permanência em zona de combate, zona onde o batalhão que rendemos esteve apenas onze meses, recebemos o batalhão de “maçaricos” ido daqui da então designada Metrópole. Dessa receção, e no que ao assunto deste artigo concerne, os novatos foram contemplados com uma faixa que dizia: “Bem-vindos, camaradas; a vossa tristeza é a nossa alegria”. E a frase terminava com três pontos de exclamação. É evidente que não lhes quería-
mos mal nenhum e lhes desejávamos a mesma sorte que nós tivemos, graças à disciplina que mantivemos; tanto mais que, não longe da referida faixa, havia uma outra que dizia: “Maçaricos, esta C.Caç. saúda-vos. Apenas queríamos mostrar o nosso alívio por rodarmos para uma zona mais calma.
Também à seleção portuguesa, durante o Euro 2012 ,desejávamos a alegria de ir vencendo os jogos perante a consequente tristeza dos nossos adversários. E tão anestesiados andámos com os jogos da nossa seleção que talvez tivéssemos deitado um bocado para trás das costas as dificuldades que estamos a enfrentar, quiçá esquecendo que “algo vai mal” no nosso país, tal como na tragédia “Hamlet” de Shakespeare (1564-1613) “algo vai mal no reino da Dinamarca”. Só que à distância de quase cinquenta anos do seu estudo já não faço a mais pequena ideia por que motivo algo ia mal no dito reino.




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