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As férias dos avós

Cá em casa, só o acaso, ou quando o ambiente relacional precise de uma espécie de um catalisador exterior que estimule uma reação polar comunicativa, é que ligamos a televisão no momento de partilha das nossas refeições. O tempo é o réu. O tempo para estarmos juntos e conversarmos juntos é sempre o culpado.

Jorge Leitão
29 Jul 2012

Hoje, talvez porque me tenha atrasado, o aparelho da cozinha (o nosso habitáculo em dias comuns), estava ligado, embora sem som que o som compromete a religação. Infelizmente o tempo não permite que se perque tempo à espera que todos terminem. Há horários diferentes a cumprir, implacavelmente. Todos temos movimentos dependentes. E foi num desses movimentos de compromisso que dei uma olhada á televisão que está fixa à parede, um metro acima do tampo do armário por detrás de mim. Esse relance interrompeu o gesto e como vejo mal, levantei-me para ficar mais próximo do ecrã. Não se tratava de uma reportagem sobre os incêndios e catástrofes do dia, nem de guerras, nem futebol: algumas pessoas aparentemente com idade de reforma entravam em carros de competição. «Que é aquilo?» perguntei sem desviar a atenção e com o ar insólito que a cena me fazia despertar. Um rali de veteranos não seria de todo pois um dos protagonistas, fazia lembrar-me a senhora de preto que descasca favas à porta da loja do vendedor de legumes e fruta aqui, numa esquina próxima. Talvez a mãe do vendedor. Não era ela que ela não sai do seu posto senão quando está fechado e o local da reportagem não ficará muito longe dos estúdios do canal que a transmitia – elementar não é, meu caro Watson? – pensava. 
«É que hoje é o dia dos avós!» atalhou a minha filha ainda sentada no lugar que a coloca na posição mais favorável para me dar uma resposta assertiva. «É uma forma de celebrar o dia de um modo radical.» acrescentou com sorriso escarninho.
«Devem-lhes ter feito um exame preventivo ao coração, não?» comentei, estendendo-lhe uma pera madura. Lembrava-me de que o meu pai fora aconselhado a não viajar de avião por ter tido um enfarte.
Entretanto como fiquei sozinho (consequência punitiva de ter chegado atrasado), desliguei o aparelho e concluí as tarefas de arrumar a cozinha. Então lembrei–me dos gatos que agora assomam às meias-dúzias os sítios de recolha de lixo na rua. É uma gatanhada. Às vezes são cães e é uma canzoada. Se as duas espécies se juntam, é uma guerra! Muitos dos animais exibem coleiras. São bichos abandonados pela certa. Este ano as instituições de proteção não se têm ouvido muito. Ou sou eu que já nem ouço! Ou pensam que as pessoas não farão férias este ano. Quem pode e vai, deixa os estimados parceiros de companhia em hospedarias afins. Ouve-se comentar os interessados que não houve quebra nas taxas de ocupação nos tradicionais locais de veraneio. Refiro-me obviamente aos agentes turísticos que acolhem pessoas e não bichos. Como só tenho uma tartaruga e dois pássaros, ficam comigo. Este ano fico-me por aqui. Há 26 anos que tal não acontecia. Além disso em agosto os meus filhos vão-se embora do país. Enviaram currículos. Acharam-nos competentes e chamaram-nos. Será que este país é demasiadamente pequeno para os competentes? Só dá para os reformados? Já não dá para se iniciar uma carreira? Ah! Os reformados. Levam-nos a dar uma voltinha de bólide e aqueles que viram a reportagem comentam: «Que ideias geniais têm estes tipos para melhorar a vida dos reformados. E se lhes dá um «treco?» «Será menos uma boca, menos um medicamento, menos uma cama num hospital, tchiu! Menos uma reforma para pagar…» pensará o «maligno.»Não. Esses ainda são novos.
Como a esperança média de vida aumentou, que será dos mais velhos? E daqueles que já necessitam de assistência permanente? Como será que as pessoas vão de férias (está tudo lotado segundo os agentes, não é?). Com quem os deixam? Haverá lares de acolhimento para todos, independentemente do estatuto social? Ou será que ficam com quem não pode ir de férias… Bem… há gente capaz de tudo…
Mas não quero pensar nisso agora. Hoje é o dia dos avós. Hoje é o dia em que os netos assumem também o protagonismo do beijo. E amanhã? Que dia será? Independentemente do dia que for, será sempre o dia da maior nostalgia para os que foram passear
de bólide ou receberam o beijo hoje. Amanhã será o dia do esquecimento permanente. Esquecimento daqueles que vivem encamados ou em cadeiras de rodas? Uma sorte se ainda estiverem vivos… Na aldeia ainda brota alguma solidariedade. Mas a cidade é a selva. De gatos? De cães? De cães e gatos? Instalou-se a guerra outra vez.




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