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A época dos incêndios

É preciso pôr ordem na democracia e acabar com a ideia de fatalidade dos incêndios, de tanto já estarmos habituados a isso como uma fatalidade. Já parece uma época de saldos: começa o calor e aí surgem os incêndios por todo o lado, pelo país fora, nos locais mais inacessíveis, denotando um planeamento estudado de modo a abranger uma vasta frente a arder, serem difíceis de atacar e ninguém saber quem os ateou.

M. Ribeiro Fernandes
29 Jul 2012

Já não restam dúvidas de que são planeados e ateados. Os grandes incêndios começam a altas horas da noite, 3H ou 4H da manhã, para ninguém ver o seu início e só os descobrirem quando já forem bem visíveis e extensos. Depois, chamam-se os bombeiros. Vêem as televisões. Conta-se o número de corporações a actuar no terreno. Centenas de homens. Muitos carros. Helicópteros. Aviões. Um exército de recursos humanos e técnicos para atacar um inimigo desconhecido. O espetáculo doentio dos incêndios. A Agência Lusa informa que “durante a fase de combate a incêndios florestais, que se prolonga até 30 de Setembro, vão estar operacionais 44 meios aéreos, 2.248 equipas de diferentes forças envolvidas, 1.982 viaturas e 9.324 elementos, reforço de mais 100 efetivos e de 3 aeronaves em relação a 2011”.

1.É inaceitável ver responsáveis dos bombeiros exibir um ar de convicção perante esta tragédia dos incêndios, como quem diz: cá está, não se pode cortar nem nos recursos humanos nem nos meios logísticos de ataque aos incêndios. O país está mesmo em condições de suportar esses custos… Mas, o aspecto mais preocupante desta tragédia é tratar-se de uma catástrofe de origem desconhecida, mas que toda a gente sabe que tem autores concretos. Na Madeira, ouviram-se testemunhas a dizer que o fogo era apagado aqui, mas, passado pouco tempo, reacendia mais adiante, que foram lançados projéteis incendiários. Em locais inacessíveis. Provocadoramente inacessíveis, para durar mais, arder mais e dar mais que falar.

2.Revolta-me que ainda haja alguns tontos a dizer que era o calor que ateava os incêndios, ou então eram vidros expostos ao sol ou pastores descuidados… Realmente, incêndios que começam de madrugada, desencadeados pelo calor, é obra. Se os grandes incêndios começam pelas 3h00 ou 4h00 da manhã, onde está o sol para os atear? Imbecilidades destas para desculpabilizar os responsáveis e ter de se investir em mais despesas com bombeiros, com equipamentos, carros, helicópteros alugados a empresas do ramo, aviões adaptados, em vigilantes da floresta, eu sei lá em que mais, com um país nas condições em que está…

3.Todos os anos ardem enormes extensões de vegetação e de árvores, como foram os casos da Madeira e do Algarve; ardem casas e animais, plantações, vinhas, olivais, coleias, tudo isto são prejuízos incalculáveis para os donos e, afinal, também para todos nós, que ficamos mais empobrecidos não só de matérias-primas, mas também climática e paisagisticamente. O turismo é afetado. E a maior revolta é que tudo continua impune, ano após ano. Revoltados porque, ao mesmo tempo que são chamados os bombeiros, deviam também ser chamados os meios policiais para investigar as causas e a Justiça atuar imediatamente. Procurar e punir, com mão dura, os culpados. E exigir que paguem os prejuízos causados. O que ardeu e os custos do pessoal e dos meios que tiveram de ser chamados para apagar o incêndio. No entanto, o que vemos deixa-nos preocupados. No espaço de tempo entre 2008 e 2010, só 174 pessoas foram condenadas por crime de incêndio florestal e os castigos ficaram-se por multas e pena suspensa. Em nenhum dos casos a pena foi substituí-da por trabalho a favor da comunidade (Lusa).

4.Há dias, um amigo fazia esta pergunta: porque é que durante o regime de Salazar não havia incêndios florestais, a não ser qualquer caso acidental? E outra pessoa no grupo avançava: porque é que a moda dos incêndios só começou praticamente por altura do Verão Quente de 75? Responda quem souber…

PS: É lamentável que se continue a insistir que os donos dos terrenos devem ser multados se não limparem os terrenos, como se isso fosse economicamente possível nos tempos que correm e como se isso impedisse os incêndios: limpo ou não limpo, tudo arde desde que lhe peguem o fogo. Não agridam mais quem já tanto sofre com os incêndios… Até parece que os culpados de haver incêndios são os donos dos terrenos. Punam-se os incendiários e deixará de haver incêndios.




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