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A crise vista por um escritor

A apresentação, no Porto, na Livraria Gato Vadio, no dia 25 de março de 2011, do livro Telemóvel. 13 Histórias à moda antiga foi memorável. Pelo menos, para o autor, Ingo Schulze. O escritor alemão veio a Portugal propositadamente para nela participar e, este ano, já recordou publicamente a ocasião pelo menos duas vezes; uma, em janeiro, no diário alemão Süddeutsche Zeitung; outra, na quinta-feira passada, no diário francês Libération.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
29 Jul 2012

É precisamente um episódio ocorrido na sessão portuense que faz arrancar o artigo que ocupa toda a página 16 do Libération, o quarto de uma série de cinco textos sobre a crise vista por escritores da zona euro: “Em março de 2011, fui a Portugal, convidado para apresentar um dos meus livros. Leitura, discussão, a noite tinha reunido um público numeroso e atento. Mas um jovem colocou uma questão que, de um momento para o outro, alterou a atmosfera até aí amigavelmente interessada e aberta”. A pergunta, que o escritor qualifica como “desagradável”, era simples: “Não estaríamos nós – e este “nós” também me incluía por ser alemão – em vias de obter graças ao euro e às exportações o que não tínhamos, antes, conseguido com os blindados?” Ingo Schulze conta que respondeu à letra: “Ninguém é obrigado a comprar um Mercedes e os portugueses deveriam ficar felizes por poderem aceder a créditos menos caros do que os empréstimos bancários habituais”.

Pouco depois, o escritor reconheceu que a pergunta e a resposta eram como que o verso e o reverso de um logro. “Como se pode ser estúpido a ponto de acreditar que o problema são os alemães e os portugueses e não de quem, em Portugal e na Alemanha, provocou esta situação, que dela retirou proveito e que com ela continua a lucrar?”, interroga Ingo Schulze.

O texto do autor de Telemóvel. 13 Histórias à moda antiga, que a editora portuense 7 Nós publicou no ano passado, está repleto de questões assaz pertinentes. “Não é verdade que, em Portugal, tal como na Alemanha (e não apenas nestes países), os lucros foram privatizados e os prejuízos nacionalizados? Não é verdade que, em Portugal, tal como na Alemanha, todos os setores da vida se têm vindo, cada vez mais, a submeter às regras da economia e à procura do lucro, mesmo em domínios em que tal é absurdo e mesmo perigoso?”

O texto apresenta uma veemente censura de Angela Merkel por ela defender “uma democracia que respeite o mercado”. Explica o escritor que “é inútil recorrer à etimologia para compreender que uma democracia que respeita o mercado não é uma democracia”. No entanto, a expressão da chanceler alemã tem a vantagem de designar corretamente o momento em que vivemos e torna mais fácil dizer qual a alternativa que se impõe. E o que é necessário é ter “mercados que respeitem a democracia”. De facto, como Ingo Schulze nota, “se quisermos sobreviver economicamente, socialmente, ecologicamente e eticamente, importa que os mercados respeitem a democracia”.

“Não é monstruoso ouvir dizer, quase todos os dias, que os governos devem ‘acalmar os mercados’ e ‘recuperar a confiança dos mercados’? Por mercados, entende-se as bolsas e os mercados financeiros, ou seja, aqueles que, no seu próprio interesse ou no dos seus mandantes, especulam para obter o máximo de lucro. Não são eles quem tem extorquido à comunidade fortunas inimagináveis? É a confiança deles que os mais altos representantes do povo se devem esforçar por recuperar?” Boas perguntas, as de Ingo Schulz. Previsivelmente, continuarão sem as respostas certas e urgentes, que importa continuar a reclamar. Como o escritor alemão bem observa, “é a colectividade, somos nós que devemos fixar as regras segundo as quais os mercados têm direito a funcionar. No fim de contas, somos nós que devemos dizer que tipo de sociedade queremos”.




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