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Horário Zero

Desengane-se se, ao ler o título acima, pensou que vinha aí mais uma piadinha sobre a licenciatura de Miguel Relvas. Não! O título não se refere ao horário letivo do letrado ministro durante o seu curso-relâmpago, se bem que até haja aqui uma certa… equivalência.

Paulo Rodrigues
27 Jul 2012

Sabe qual é a melhor profissão que se pode ter em Portugal? Simples! É sempre a profissão dos outros, nunca a nossa. Porque a profissão dos outros é sempre mais fácil, a nossa dura e desgastante. A dos outros tem regalias que invejam, a nossa é só deveres. Na dos outros não se faz nada, enquanto a nossa é de suar as estopinhas.
E se a profissão alheia for a de professor, então é que nem se fala. É um manancial de benesses que normalmente se lhe associa que realmente, segundo muitos, deve ser a melhor profissão a ter no nosso país, pois o professor tem três meses de férias; trabalha poucas horas por semana; tem dia livre; está sempre a faltar; tem um excelente salário. Estas são apenas algumas das ideias preconcebidas que por aí vagueiam sobre a classe docente e que, de tão repetidas e enraizadas, transformam-se em autênticos mitos urbanos. E estes são tão difíceis de desmentir.
Nas últimas semanas, têm-se multiplicado as notícias sobre as novas reformas operadas pelo Ministério da Educação para o próximo ano letivo e uma das consequências mais visíveis é o número incontável de professores dos quadros que passarão a ter Horário Zero. Ao ver, há dias, uma dessas notícias publicadas no site de um jornal, fui parar à zona destinada aos comentários dos leitores e deparei com um autêntico fórum de opinião sobre o assunto. Resolvi começar a ler alguns, pensando que iria encontrar neles a preocupação pelos efeitos que as novas medidas poderiam trazer à educação no nosso país. Afinal o que vi foi um discorrer amargo das vozes do costume que apenas conseguiam vislumbrar mais um suposto privilégio atribuído aos professores, com pérolas como “se até agora nada faziam, agora é que vai ser” ou “com horário zero, vão passar o dia na conversa no bar da sala dos professores” e, ainda, “os parasitas do Estado vão estar a ganhar o salário para não trabalharem”.
Estas opiniões, que são baseadas na pura ignorância dos factos reais e numa inveja incompreensível, demonstram uma falta de capacidade de quem as profere em encontrar o verdadeiro foco do problema. Por uma vez, seria importante deixar os professores em paz e acordar para o que se pretende fazer na educação dos nossos alunos. As medidas que aí vêm, com os Horários Zero a reboque, estão longe de beneficiar os professores, mas não é isso que interessa. Interessa é que, por serem feitas à toa e sem estudo, se desconhece quais serão as consequências que todas estas orientações educativas trarão ao país. Isso significa que, bem vistas as coisas, não serão os professores os únicos a terem Horário Zero. Enquanto se aguardam os resultados destas políticas educativas, seremos um país inteiro, adiado, com Horário Zero. 




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