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Contas à vida

A Europa anda confusa e são cada vez mais as vozes que dão razão aos eurocéticos que, desde sempre, alertaram para as desvantagens de uma moeda única aplicada a economias diferentes. Por cá, o ambiente não sendo muito diferente, mantém expetantes os cidadãos graças a um Governo que, verdade seja dita, em matéria de otimismo é muito parecido com o anterior, parecendo aceitar a situação com normalidade, entendendo estar a cumprir o memorando e que as medidas tomadas eram inevitáveis.

J. Carlos Queiroz
25 Jul 2012

Devo dizer que, independentemente da opinião que possa ter sobre as questões políticas que motivam ideologicamente o Governo, vejo com preocupação o crescimento do desemprego e da instabilidade social, ao mesmo tempo que me custa admitir que os responsáveis políticos estejam conscientes da situação real em que vivem os portugueses. Perguntava recentemente um prestigiado economista como vai acabar tudo isto? Mal, somos tentados a dizer. Mal para o euro. Mas certamente bem para as economias dos Estados-membros. Na verdade, há quem, por aí, se refira à formação de um Estado federal capaz de cumprir uma indispensável missão de vigilância, da mesma forma que entendem o Banco Central Europeu devia ter protagonismo nomeadamente através da criação de moeda.
Também tem sido apontada como solução para economias muito diferentes, a saída da moeda única e o regresso a uma política monetária e orçamental nacional, porém neste caso sempre adiantam e perguntam, como operar essa saída e, sobretudo, como minorar os seus custos? Estamos a falar de opiniões diferentes entre economistas, mas, na verdade, o cidadão comum também faz contas à vida. Sem subsídios e com empregos precários, todos sentem que vivemos momentos de profunda crise e mesmo as suspeições que vão sendo notícia a propósito de quase tudo, apenas servem para descredibilizar a política e os políticos, passando uma ideia de impunidade e compadrio a que já poucos escapam.
O País, pequeno, pobre, endividado e preocupado, na verdade anseia por estabilidade e sinais de esperança, por trabalho e segurança, seja nas ruas, no emprego ou mesmo nos contratos. Chega de pessimismo e descrédito. As pessoas nunca pediram demasiado aos políticos e confiaram, ano após ano, naquilo que ía sendo programado como possível para que a qualidade de vida fosse o resultado das opções e das políticas seguidas. Os sinais eram referidos como retoma económica e as pessoas sempre acreditaram até porque, diziam-nos, tivemos períodos de grande ajuda internacional. As obras públicas, os contratos, as parcerias eram notícia e constituíam o caminho seguro para um Portugal de progresso e riqueza. Acreditámos naqueles a quem um dia confiámos o voto. Pensámos que os eleitos entendiam o poder como a prestação de um serviço público com isenção e sentido de Estado! Talvez por isso muitos ainda hoje permanecem incrédulos e incapazes de entender qualquer explicação sobre o “buraco” em que caímos. Provavelmente estamos agora a sentir os efeitos de tantos erros ou opções do passado!
Mas será que a inevitabilidade anunciada pelos políticos, na atualidade, não é também ela um erro? Olhamos em redor e sentimos que a Europa do Sul vai mal! Mas depois dizem-nos que pequenos países conseguiram vencer crises idênticas, num passado recente, e até nos apontam outros, como a Suíça, como um exemplo relativamente a tetos nas pensões, com uma política de sucesso que terá evitado problemas no seu sistema social! Curiosamente, parece que, por cá, as desigualdades tendem a aumentar e merecem mesmo referências internacionais. Falamos pouco em corrupção, mas há quem diga que existe em grande escala!
Depois temos consciência das dificuldades sentidas por uma classe média  que vai desaparecendo, pelos estudantes sem futuro e aconselhados a procurar trabalho fora do País, das dificuldades encontradas pelos Licenciados para entrar no mercado de trabalho, em alguns casos porque o sistema cria dificuldades no acesso à profissão, enquanto outros encontram em Bolonha um caminho ideal para singrarem na vida. Temos também a certeza de que o sistema condena muito cedo os desempregados a uma desmotivação perante a vida, não lhes dando sinais de esperança, antes os condenando a uma inatividade doentia e frustrante.
Num tal cenário, será que o Governo fez ou pode fazer alguma coisa? A questão social, a forma como vivem as famílias e como encaramos o futuro, deve constituir um objetivo fundamental em vez de uma inevitabilidade doentia. Portugal tem de encontrar uma saída, um caminho para que todos possam cá viver dignamente. Acredito os nossos políticos podem fazer algo pelos portugueses, certamente mais do que confrontá-los sistematicamente com medidas de austeridade. A ver vamos!




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