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Dante Alighieri e o prenúncio do alvorecer do Homem Novo

As volumosas tochas que, empunhadas antecipadamente por Dante, (1265) alumiam a saída dos vacilantes passos da Idade Média para a entrada, em palco, da madrugadora Modernidade (ávida de mudanças e novidades) são o Renascimento e o Humanismo.

24 Jul 2012

Historicamente falando, o teste diagnóstico, acerca da entrada desta nova aurora, a modernidade, está já subjacente no folhear da Divina Comédia de Dante. Esta magnífica obra encontra-se, toda ela, artisticamente tecida de doiradas filigranas, marteladas e trabalhadas nas bigornas poéticas de Vergílio e Homero.
Não é do meu interesse e paixão desbaratar energias, aqui e agora, com a elucidação dos conteúdos e os zumbidos das suas atraentes dinâmicas, ao redor das culturas renascentistas e humanistas. Todo o conteúdo deste alvorecer da Idade Moderna está rico e claro. O interesse da minha atenção martela, com mais ou menos vigor, em colher ajustamentos, na tomada de consciência das representações, que relampejam nos altos píncaros da mente de Dante e ribombeiam, em ondas de doces vivências, pelas arcadas do seu organismo fisiológico e do seu coração. Nestas representações, assim me parece, abotoam os seus desejos de renovar as atitudes comportamentais de qualquer homem, para depois se autoconstruir como Homem Novo – o que renasce depois de renovado. Em função de tal construção, Dante instrumentaliza, com toda a paixão, aquilo que tem de mais caro, o seu “doce estilo novo”.
Dante afirma que a finalidade do poema é a de “afastar os que vivem nesta vida do estado de miséria, conduzindo-os a um estado de felicidade”. “O supremo desejo de todas as coisas e o primeiro que da natureza resulta é o de regressar às suas origens” (Convívio iV, 12, 14). A Igreja deverá renovar–se, diz Dante, regressando à sua primitiva austeridade, seguindo os exemplos de S. Domingos e de
S. Francisco. O Estado deverá regressar à paz, à liberdade e à justiça, renovando-se, assim, no regresso à conceção imperial de Roma. Como afirma Nicola Abbagnano, a intenção de Dante visa o outro mundo para depois regressar a este e promover a sua renascença. A remodelação, diz Dante, deve tirar os homens das suas misérias e conduzi-los à renascença num mundo renovado. Vejo nesta sua última afirmação o prefácio do dealbar do “Homem Novo”.
Vou tentar esculpir, agora, o perfil existencial do homem que se autorregenera e vou-lhe pôr o sinete de “Homem Novo”.
Em traços largos, vou afirmar que, o homem que se autorregenera, é o que se renova, permanente e progressivamente, em seus relacionamentos com a realidade em toda a sua integridade. Para tal, ao gerir conscientemente a sua liberdade, vai afastando, progressivamente e em todas as direções, os obstáculos das roturas, das dessintonias, dos extremismos e lateralidades. É a pessoa que, consigo e com o outro, renova, em todas as direções, as suas aberturas de aceitação, de compreensão, compaixão, empatia e perdão. Para conseguir isto, vou encetar um caminho novo, ainda não percorrido por Dante, mas que dele muito se aproximou.
Vou partir pelas vias do conhecimento, da intuição, da meditação e da experiência contemplativa para encontrar o caminho novo. Tal caminho, por onde envereda o homem novo é, na minha opinião, o da estrutura metafísica do seu autêntico e real ser (fonte e regresso da nossa natureza existencial).
A raiz desta estrutura é o uno (coroa da globalidade). O tronco é a sua corporalidade espiritualizada (sentido de todas as sintonias). A frondosa copa é a sua autêntica identidade, espelhada nos frutos vitamínicos (de vida, luz, verdade, amor, paz, sabedoria…)
É por este caminho natural que a igreja, creio eu, para obter ainda mais eficiência e êxito no pastoreio do seu povo e abortar os peçonhentos ataques, que lhe são maliciosamente dirigidos, tem de emigrar para Deus e imigrar para a nossa natureza, escorada pelo tempo, pelo espaço, pela cultura.
O critério válido para toda a nossa vida é ditado, naturalmente, por esta granítica estrutura metafísica do ser.




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