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Esperando sinais de não-austeridade

Massacrados com medidas de austeridade, resultado do destempero de governos anteriores e inseridos numa mentalidade social gastadora, parece que não vemos chegar a hora das boas notícias. Encurralados por díspares atitudes de empregadores, de sindicalistas, de trabalhadores e mesmo de políticos, parece que não vivemos no mesmo país ou, pelo menos, não estamos ao mesmo ritmo psicológico e até cultural.

23 Jul 2012

Baralham-nos propostas de solução, onde cada qual se reveste dos objetivos que mais lhe interessam, nem que seja confundindo as turbas para tirar proveito do mal-estar.
Colocamo-nos mais ao sabor do imediato, numa sensação de que o momento presente pouco tem a ver com as boas ou as más opções do passado, parecendo poder inferir-se que o futuro será melhor por arte e engenho de algum demiurgo.
Estão, no entanto, a ser dados indícios (reais ou virtuais) para a inversão do discurso da austeridade, criando, por outro lado, outros clichés mais ou menos populistas, como empreendedorismo, recuperação económica, mudança de atitude, sair do desemprego, mobilizar as forças positivas, semear esperanças… Onde e quando?
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Estando a viver uma época de crise, que tem tanto de cultural e moral como de económica ou social, onde muitas das certezas foram colocadas em causa pelos efeitos nas faixas mais vulneráveis (é preciso dizer, de facto, ‘pobres’) da população pelo desemprego, nas tensões sociais, na precariedade na saúde e na segurança, importa, mais do que fazer um diagnóstico exaustivo dos sinais negativos, encontrar desafios ousados e sensatos, sérios e simples, serenos e superiormente capazes de envolver o maior número de cidadãos conscientes e mesmo de cristãos comprometidos.
– Sistema de poupança – mais que tentar impor um certo regime de poupança, aferindo as necessidades de consumir às possibilidades ponderadas do ter, importa que saibamos aprender a viver com o essencial e não só  maldizendo quem nos possa ter obrigado a reduzir ao mínimo aquilo que deveria ter sido opção de vida.
– Trabalho e não só emprego – após um tempo de faz de conta que se ganha dinheiro sem trabalhar, temos de aprender a agradecer o dom do trabalho, que é muito mais do que o ganha-pão (pessoal ou da família) para ser, verdadeiramente, um projeto de realização humana, cultural e psicológica.
– Harmonia social e política – num certo clima de azedume, de crispação e mesmo de confronto, tanto nas relações humanas como sociais – vejam-se nas notícias as facetas de negatividade com que somos bombardeados diariamente – é urgente favorecer sinais e factos de boa convivência, que é muito mais do que paz podre, tanto na vizinhança como nos vários estratos da sociedade, portuguesa e até europeia.
– Justiça pela caridade – citando esta frase de Santo Agostinho, gostaríamos de ir fazendo uma constante descoberta destes conceitos (humanos e, sobretudo, cristãos) para que se dê ao outro o que ele merece, por justiça, e se lhe faculte o que ele precisa, por caridade. De pouco serve fazer do Estado o pai previdente, se não se acredita e se coloca a vida em Deus, o Pai providente. Um certo estatismo tem feito crescer muita preguiça, gerando uns certos paladinos do dito ‘Estado social’, que mais não é do que uma capa para nada fazer se não for na linha da ideologia reinante, isto é, laica, republicana e agnóstica.
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Agora que já sabemos (quase) tudo sobre a austeridade, importa criar laços de fraternidade em que o bem comum seja mais do que uma treta de circunstância ou discurso heróico em colóquios sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II. Temos de voltar a aprender a radicalidade do Evangelho ou tornar-nos-emos, cristãmente falando, dinossáurios de uma promessa com mais de vinte séculos para realizar.




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