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É a própria Unesco que tenta salvar o Tua

1 – Um “puxão de orelhas” às autoridades portuguesasA ONU, através da sua agência para os assuntos culturais, a UNESCO, deu, há 2 meses atrás, uma forte reprimenda aos governos portugueses por estes lhe terem ocultado dossiês e dados relativos ao verdadeiro impacto que irá ter, na paisagem mundial protegida do Alto Douro Vinhateiro, a construção de uma barragem no rio Tua, um dos principais afluentes do mesmo Douro.

Eduardo Tomás Alves
23 Jul 2012

É claro que a UNESCO, sediada tão longe de Portugal, dirigida por estrangeiros, superintendendo centenas de assuntos diversos, não tem obrigação de conhecer a singularidade e a majestade da paisagem de Trás-os-Montes e Alto Douro. Especialmente a das espetaculares gargantas dos rios Tua e Sabor. Isso é (devia ser) da competência dos portugueses, ao menos que fosse, das elites e dos governos portugueses. Só que Portugal e as suas elites e governos andam “como se sabe”. Ao ponto de o anterior governo socialista do infausto Sócrates, à beira do precipício da total insolvência financeira, continuar, como se nada fosse, a encomendar autoestradas no deserto, barragens em rios secos, TGVs e por aí fora.

2 – A “troika” manda reduzir a despesa e rever as PPP, mas o actual governo não liga
Apercebendo-se de que não é possível, nem saudável, carregar ainda mais os portugueses com impostos, os próprios representantes do FMI, Banco Europeu e Comissão Europeia recomendam hoje vivamente ao Governo PSD-CDS para, em vez disso, cortar na despesa pública. E repetem que se deve alterar fortemente os benefícios concedidos por Sócrates aos grandes grupos económicos, quando com eles o Estado acordou as famosas e ruinosas parcerias público-privadas. Se isto fosse aplicado às barragens, as obras parariam de imediato, pois trata-se de projetos caríssimos; inúteis, porque não rentáveis, e destruidores do melhor da paisagem portuguesa. Infelizmente a ministra centrista do Ambiente, Assunção Cristas, tem-se revelado uma lúgubre continuadora da destruição socratista de Trás-os-Montes.

3 – Afinal, há ou não há impacto ambiental?
Claro que há! E é brutal. A construção de duas barragens, uma no Tua e outra no Sabor, representa (e mesmo os mais burros o constatarão) uma destruição da paisagem natural em largas dezenas de kms. Representa um impacto visual de que só um tonto, ou um cego, não se aperceberá. Representa o fim de algumas espécies de animais fluviais e o fim de ecossistemas e de microclimas. Representa, sobretudo, a inundação, quase pela metade da altura, de extensos e altos desfiladeiros rocosos e boscosos  que antes eram o couto de caça de aves de rapina raras, tais como a águia de Bonelli, os tartaranhões, os falcões, os mochos reais. Aquele era o “habitat” onde eles nidificavam. Discutir aqui o impacto ambiental? Que disparate, que brincadeira de mau gosto… E depois são também as dezenas de kms de fios de alta tensão que, dentro ou ao lado do curso do rio Douro, irão criar cicatrizes irreversíveis na paisagem. E irão hipotecar a tão estimada quão rendosa classificação da zona como “património mundial”. Não se pense, contudo, que é o levantamento de dois gigantescos muros de barragem, no Tua e Sabor, que causará o maior impacto. O mais negativo não é a parede em si, mas o futuro enchimento de dezenas de kms nos vales, rio acima, destruindo a paisagem imemorial.
4 – Barragens em rios secos só  funcionam com a “ajuda” de novos parques eólicos
 A maior parte do ano, o caudal de rios como o Tua e o Sabor é mínima. E sem água não se produz electricidade. Assim, os engenheiros inventaram um processo que faz com que a água passe na turbina mais que uma vez. Mas tal só se alcança com outras fontes de energia. Quais são? As eólicas. Portanto, a breve trecho, o belo planalto de Ansiães ou zonas vizinhas vão ficar cobertas com ventoinhas gigantes, apagando do mapa um dos mais extraordinários sítios naturais de Portugal. Sócrates e o sr. Mexia são geniais e merecem bem os magros proventos que auferem…

5 – Mal a Unesco virou costas e…
 Segundo refere a edição de 21.6.2012 do insuspeito Mensageiro de Bragança (insuspeito porque raramente se declarou contra barragens, eólicas e autoestradas) houve uma visita à foz do Tua por parte da secção da UNESCO que analisa estes casos, o ICOMOS. Tal visita ocorreu pouco antes de Abril de 2011 e nada decidiu, até porque o governo PS não facilitou a totalidade da documentação e dos estudos. Mal foram porém embora, começaram as obras. Contudo o ICOMOS  declarou que a obra teria “um efeito profundo sobre uma vasta área, resultando na perda permanente de uma parte da paisagem cultural”. Considerou que era “grave e irreversível” o impacto sobre o Alto Douro Vinhateiro e aconselhou a UNESCO a “mandar parar as obras”. Ameaçou que, na reunião de 2013, irá por em causa a classificação do Alto Douro Vinhateiro. Nem assim pára este estúpido projeto?




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