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Avenidas da cidade

A incerteza dos novos tempos atira-nos para o refúgio seguro de conceitos como o de desenvolvimento sustentável. Da complexidade de ações que neste podemos enxertar, merecem especial destaque os temas ligados ao setor do turismo. Isto a propósito do arquivamento do processo de classificação do conjunto dos edifícios do quarteirão do Theatro Circo, por terem sido realizadas intervenções que desvirtuaram o potencial valor nacional.

Tiago Varanda
23 Jul 2012

O turismo é considerado um dos maiores setores económicos do planeta, quer pela riqueza que é capaz de gerar em termos absolutos, quer, sobretudo, pela forma socialmente equitativa como essa riqueza consegue ser distribuída por todos os seus agentes ativos – da criação de emprego direto ao impacto multiplicador no caleidoscópio de indústrias associadas. Mesmo que deitemos os números fora, a sustentabilidade conferida a um desenvolvimento que aposte neste setor terá sempre o valor do resgate de uma identidade própria num mundo altamente globalizado. O desenvolvimento humano em cada indivíduo, o comunitário numa identidade, e o ambiental como legado, convergem aqui. Tudo isto, se associado a uma gestão pública inovadora e eficiente, possibilita a construção, numa palavra, de um futuro para a nossa cidade.
O presente, no entanto, não parece estar a ir neste sentido. Mais preocupante que o referido regulamento de proteção da zona histórica – recentemente aprovado em sede de Assembleia Municipal, na qual tive a oportunidade de tecer considerações sobre alguns normativos que, efetivamente, retiram proteção ao património arqueológico – é a visão limitada deste executivo camarário, quanto ao valor acrescentado do património edificado em Braga, que hipoteca aquele futuro. Num tempo em que duas capitais europeias disputam, num território contíguo, a sua capacidade de atração para um público exigente, o pálido aumento de visitantes que Braga este ano assinala, mais não é que o mero reflexo e efeito de refluxo (e mesmo este subaproveitado) da capacidade de dinamização que Guimarães tem conseguido realizar. Os números são indesmentíveis. Ninguém consome o produto CEJ2012, transformado que está em campanha para mero consumo interno e em rampa de lançamento de políticos de tipo foguete.
O fragmento da nossa singular Avenida da Liberdade, que agora foi arquivado, não terá, hoje, em si mesmo, a suficiente capacidade de atração de uma capital europeia. Mas neste presente continua a manifestar-se a história de Braga, cuja riqueza milenar teima prevalecer sobre as últimas quatro décadas. Pese embora o efeito demolidor do prolongamento do seu túnel para a arqueologia – irrecuperável – a Avenida encerra ainda um enorme potencial. Lembro os belíssimos edifícios de habitação da segunda metade do século XX, testemunhas da história da arquitetura europeia em Braga, irrepetível depois dos anos 70. Sem o reconhecimento imediato de épocas hoje mais valorizadas, aportam para o futuro esse valor indizível da arquitetura de qualidade. Os edifícios da então Caixa de Previdência, por iniciativa dos seus moradores, constroem hoje bem aquele ambiente europeu no fragmento superior do cruzamento da Avenida com a Rodovia. Já na parte inferior, os edifícios no correr da remarcada Pastelaria de S. João, constituem uma mancha sombria, dado o avançado estado de degradação das suas fachadas. Poderá distrair-se o observador menos atento da interessante linha que os desenha, mas ao executivo camarário não deveria ser indiferente. No nosso futuro, já não teremos o Turismo como nome de hotel, e marco, também, da vida da Avenida da minha infância. As memórias transformam-se, é certo, mas teremos de assegurar que vivam.
Urge à Câmara Municipal de Braga um novo olhar sobre um certo tipo de património da cidade, para não se voltarem a repetir os erros do quarteirão do Theatro Circo. Talvez menos evidente para o leigo, talvez menos publicitário que uma regeneração urbana de grandes cartazes com gente de papel, talvez menos apetitoso para a gula imobiliária; talvez menos cansado. Mas é exatamente aí que faz sentido a intervenção pública: onde as pessoas reais vivem; onde, demasiadas vezes, nos últimos anos, os gabinetes de arquitetura não entraram; onde a degradação do tempo ou da péssima construção desmentem os slogans atirados na caça ao voto.
Passado e o futuro enlaçam-se no presente. É preciso que o presente não se repita para que no futuro seja bom viver em Braga.




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