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Quo Vadis, Europa?

3. Um novo “Bloco de Leste”?!1 Os vários Estados-membros da União Europeia (UE) – e, mais surpreendentemente, os 17 países da zona euro – prosseguem as respectivas rotas sem o delineamento de uma estratégia comum e eficaz para ultrapassar a actual crise que mina a coesão e corrói os alicerces de paz e prosperidade que a Europa erigiu ao longo de mais de sessenta anos; escorados nas suas posições, “viram o disco e tocam o mesmo”, na esperança de que a crise se resolva por si mesma; aprovam planos para daí a cinco ou seis anos, mas sem saber o que fazer nas semanas a seguir.

Acílio Rocha
22 Jul 2012

Se é verdade que algo de diferente se passou na última Cimeira Europeia (28 e 29 de Junho) – como comentámos na nossa crónica anterior -, sabemos que foi muito pouco perante a gravidade da situação, tanto mais que as diferenças interpretativas e os desentendimentos começaram logo após os líderes europeus virarem as costas uns aos outros. Ora, ou a UE avança para “uma união cada vez mais estreita entre os povos de Europa” – conforme se enuncia nos diversos Tratados relativos à UE -e com maior urgência entre os Estados da zona euro, ou poderemos vir a assistir à derrocada de todo o sistema comunitário, que seria uma das mais tremendas tragédias, de consequências imprevisíveis no desenrolar deste século XXI.

2. Com efeito, se não houver uma resposta pronta, coesa e colectiva, as probabilidades de o euro entrar em colapso são reais. Então, poderemos assistir ao renascer dos nacionalismos, ao retorno das moedas nacionais, será o recrudescer do medo, a corrida em pânico aos bancos, o regresso ao controlo de capitais e de câmbios, as falências em série e o desemprego em escala inimaginável, já hoje numa percentagem devastadora. Poderá ser até, a prazo, o retorno aos conflitos armados num dos continentes mais beligerantes da história; será, sem dúvida, um retrocesso civilizacional.
Julgo que todos os líderes europeus têm consciência de que a hecatombe do euro seria uma tragédia. Se a chanceler alemã tem alguma razão em dizer que só pode haver mutualização de dívidas quando houver mutualização dos controlos orçamentais e fiscais, o presidente francês tem igualmente razão em insistir em políticas de crescimento, no papel mais interventivo dos fundos de estabilização financeira no mercado da dívida e na criação de euro-obrigações. Ambos têm razão, mas os países da zona euro em crise também têm as suas razões. O problema é precisamente esse: não há uma razão europeia, que resulte de instituições europeias e que se faça valer como tal. Há apenas as razões de cada Estado-membro!

3. Neste sentido, o sucesso ou insucesso da Grécia será o sucesso ou insucesso da UE. De certo modo, somos todos gregos: somo-lo não somente porque a Grécia foi, desde os séculos VII-VI a.C., o berço dos ideais europeus, mas porque a sua saída da zona euro significará a dissolução da própria moeda única europeia. Numa situação de abandono pelos seus pares europeus, pouco mais restará à Grécia que virar-se para a zona de influência da Rússia. Porventura, o presidente da Rússia – o mais maquiavélico político dos tempos modernos -, não deixaria fugir a oportunidade de recriar um novo “Bloco de Leste” europeu, agora numa incursão descarada no interior do que é genuinamente Europa.
Para além da Grécia, não esqueçamos que a República do Chipre já pediu à Rússia um empréstimo avultado, além do resgate pedido à UE para solvabilidade do seu sistema bancário, que, tal como em Espanha, mina a economia cipriota. Também aqui é clara a ampliação da influência russa na área estritamente europeia.
Olhando um pouco mais longe, vemos como em Kiev o partido no poder fez aprovar no parlamento um projecto de lei controverso que torna a língua russa um idioma regional na Ucrânia – uma aprovação-surpresa, sem aviso prévio. Opositores consideram que a introdução do russo irá manter a Ucrânia na esfera de influência da Rússia.
Outro caso diferente, mas não menos paradigmático: o populista nacionalista Tomislav Nikolic venceu as eleições presidenciais na Sérvia, em finais de Maio passado, contra Boris Tadic, um candidato pró-europeu. Tadic advertira que seria “um trágico erro se a Sérvia mudasse a sua orientação (sobre a União Europeia)”, acentuando tratar-se de “uma questão de paz e de desenvolvimento económico”.
Recuando no tempo, recorde-se como as tropas russas ocuparam vários pontos da Geórgia (Agosto de 2008). Embora a guerra entre Tbilissi e Moscovo esteja relacionada com problemas étnicos e nacionais que datam da dissolução da União Soviética, sabe-se que a Geórgia ia num sentido contrário às ambições russas, particularmente a partir de 2004, tentou aproximar-se da OTAN, de modo a escapar ao poderio russo.
Nessa área de influência, há ainda que pensar na importância de outros países, tais como a Bielorrússia e a Moldávia. É, pois, cada vez mais claro que a Rússia anseia retomar a posição hegemónica que, nos tempos de URSS, ocupou na Europa e no Cáucaso.




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