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Que fazer com estas multidões

Durante o verão, realizam-se por todo o Minho muitas peregrinações e romarias, que continuam a reunir multidões. Os emigrantes que ainda voltam à terra para algum tempo de férias marcam a vinda por altura dessas romarias. Isto mostra o valor social e cultural que têm, para além do eventual valor religioso. Nalguns casos, reúnem dezenas de milhares de pessoas.

M. Ribeiro Fernandes
22 Jul 2012

Não sei se em todos os santuários, mas, pelo menos em alguns, pauta-se a programação em função dessas peregrinações, quase como objetivo único. Vale a pena refletir sobre estas manifestações coletivas de religiosidade. Em próxima oportunidade, gostaria de falar sobre a dicotomia entre religioso e profano, um barómetro do estado de divisão da Igreja entre clérigos e leigos, que continua viva no subconsciente do povo e aqui e além se vai manifestando, tão distante ainda do desejo do Povo de Deus enunciado pelo Vaticano II.

1. Quando se ouve dizer que uma peregrinação foi um êxito, importa perguntar o que se entende por êxito e o que vão fazer com esse êxito. Nomeadamente, neste tempo em que tanto se fala em turismo religioso, arma de dois gumes se não for bem entendido. Para os que pensam que uma manifestação coletiva religiosa vale como afirmação de fé e como evento a explorar turisticamente, não há mais nada a fazer. É só conservá-la. E explorá-la. Para os que procuram distinguir manifestação religiosa e convição pessoal, então haverá muito mais a fazer, na medida em que as manifestações de massas têm sempre muito de sentimento efémero e de motivação inconsciente e remetem mais para a cultura tradicional religiosa que para a conversão pes-
soal cristã. São um valor, mas precisa de ser desenvolvido e complementado.
2. No fundo, trata-se de perguntar se a função de um santuário é apenas acolher manifestações coletivas de religiosidade tradicional ou se deve ir além disso. Tem havido uma perigosa confusão entre cristianismo sociológico e evangelização, como se tudo já estivesse feito e bastasse promover manifestações coletivas para manter a chama da fé. É uma urgente reflexão pastoral que os cristãos precisam de fazer e que já foi objeto de análise após a última vinda do Papa a Portugal e posterior ida dos Bispos portugueses a Roma. E que os resultados do último Censo Religioso confirmaram.
As manifestações religiosas coletivas são importantes, porque podem ajudar a reforçar as convicções pessoais e a mostrar o seu poder na vida social; mas, para que as convicções pes-
soais sejam reforçadas, é preciso que já existam como processo de conversão. Traduzindo para o papel dos santuários, quer dizer que eles são uma espécie de paróquia virtual que vive das paróquias e encaminha para as paróquias. São, ao mesmo tempo, ponto de chegada e ponto de partida. Sozinhos, não fazem sentido.
Nos santuários, juntam-se todos para uma manifestação coletiva, mas partem de uma realidade que já existe, as comunidades paroquiais, que tendem a ser comunidades de base, que podem coincidir ou não com a área territorial que as paróquias hoje têm. Os santuários são importantes para as paróquias como as paróquias são importantes para os santuários. Ambos são complementarmente importantes. Quer dizer que o êxito de uma manifestação coletiva de fé, mesmo sendo um êxito, não termina aí. Se assim fosse, não passava de um vento efémero que passou e desapareceu.
3. O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa disse, numa palestra, em Guimarães, que “os católicos já são minoritários em questões centrais do país. Em questões como o aborto ou conceções sobre a família, tem havido decisões maioritárias dos portugueses diferentes daquilo que é a posição da maioria esmagadora dos católicos, o que significa que os católicos, nessas questões, já ficaram minoritários. Os últimos números mostram, por exemplo, que, em matéria de famílias, há um número crescente de uniões de facto e de casamentos não religiosos e que diminui o número de baptizados comparativamente com o passado”. Eu diria que não se trata de ser minoritários. Estatisticamente são maioritários. Trata-se da linha que divide cristianismo sociológico e cristianismo de conversão. São maioria na estatística, porque se dizem tradicionalmente cristãos; mas são minoria em convicções e coerência, quando têm de fazer opções de vida. É essa linha que separa o valor relativo das maiorias e o valor absoluto das minorias.
Por muito expressivo que seja o êxito de uma manifestação religiosa, onde predomina mais o sentimento efémero e o inconsciente, se não se orientar para a construção pessoal consciente, falta-lhe consistência e coerência. Aí é que se insere o trabalho a continuar. Mas, isso não quer dizer que se não devam promover essas manifestações coletivas. Devem promover-se porque têm a sua importância cultural e o seu papel religioso. Não se deve é ficar por aí e cada uma das partes se fechar sobre si mesma. Nem do lado dos santuários nem do lado das paróquias. Há um trabalho de interação que deve continuar.




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