Fotografia:
Mentir, dizendo a verdade

A pergunta não é recente, mas, de vez em quando, é avisado repeti-la: será possível mentir, dizendo a verdade? Há momentos em que, como por estes dias sucede, lendo os jornais, a questão, de novo, se impõe. Será possível mentir dizendo a verdade? Ainda que a dúvida possa, talvez, parecer paradoxal, a resposta é afirmativa.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
22 Jul 2012

Para quem não percebe muito bem como se poderá mentir dizendo apenas a verdade, há um exemplo eloquente, que se encontra num pequeno filme brasileiro que pode ser encontrado no YouTube. Tem pouco mais de um minuto de duração e inicia-se com a exibição de um conjunto com poucos pontos pretos de tamanhos diferentes, todos eles mais ou menos grandes. Simultaneamente, o espectador pode escutar uma voz off que se encarrega de narrar uns quantos factos: “Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo”.

Os pontos pretos vão-se, depois, reduzindo e multiplicando muito lentamente. A narração prossegue num tom grave: “Em seus quatro primeiros anos de governo, o número de desempregados caiu de seis milhões para novecentas mil pessoas”.

Os extraordinários feitos desta figura política, cuja identidade não é possível adivinhar, continuam a ser enaltecidos: “Este homem fez o produto interno bruto crescer 102% e a renda per capita dobrar. Aumentou os lucros das empresas de 175 milhões para 5 bilhões de marcos. E reduziu uma hiperinflação a, no máximo, 25% ao ano”.

Além de ser capaz de promover – e com que magníficos resultados… – a recuperação económica de um país, o protagonista parece ser alguém de bom gosto, um esteta, a julgar pelo que, logo a seguir, o narrador garante: “Este homem adorava música e pintura, e, quando jovem, imaginava seguir a carreira artística”.
Aqui chegados, a redução e a multiplicação dos pontos pretos acelera-se para compor um retrato a preto e branco. Torna-se agora possível identificar a personagem louvada, que é, afinal, um dos mais ferozes criminosos do século XX: Adolf Hitler.

A apresentação da imagem de tão sinistra figura histórica, depois de terem sido feitos tantos encómios à sua ação, dita ao filme uma conclusão: “É possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade”, a que se acrescenta uma recomendação: “Por isso, é preciso tomar muito cuidado com a informação e o jornal que você recebe”.

As imagens terminam exibindo o título de um jornal e enunciando uma espécie de slogan: “Folha de São Paulo, o jornal que mais se compra e o que nunca se vende”. Realizado em 1987, este brevíssimo filme, que já aqui tinha merecido atenção, explica, como melhor não é possível, como é que, mostrando apenas pequenos nacos da realidade, não mentindo, portanto, se pode ocultar e adulterar a realidade integral, faltando, pois, à verdade.

O discurso de múltiplas instâncias do poder recorre, cada vez mais, ao expediente de mentir dizendo a verdade. A mentira torna-se assim mais sofisticada e mais eficaz. E com essa mentira pactua o jornalismo sempre que aceita ser o papagaio desses poderes, divulgando pedaços da realidade sem escrutinar de que modo é que eles, extraídos da globalidade que se pretende esconder, mentem (claro que enquadrar um fragmento é trabalhoso e, por vezes, incómodo). A cumplicidade existe também, agravada, quando se divulgam falsidades, que nem sequer se subtraem ao descaramento de serem óbvias, sem que se lhes acrescentem as reticências de uma simples dúvida, por mais inócua que ela possa ser.




Notícias relacionadas


Scroll Up