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Por favor, falem claro

Quem esteve atento às notícias dos últimos dias, facilmente se apercebeu do mal estar causado pelas declarações do Sr. Bispo das Forças Armadas, Dom Januário Torgal Ferreira, dando mostras e sinal evidente de que se as palavras não caíram em saco roto. Podemos concordar ou discordar das opiniões manifestadas, mas temos de as aceitar e saber viver com elas, se possível corrigindo eventuais erros políticos.

J. Carlos Queiroz
21 Jul 2012

Na verdade, os comentários produzidos a título pessoal, apenas vinculam o seu autor, mas a eventual dureza das palavras deve significar apenas que a indignação existe e há quem, de forma clara, a aborde, sendo temas incomodativos apenas porque põem em causa medidas e políticas que afetam muitos milhares de Portugueses, sendo milhões os que vivem mal ou na pobreza, não tendo capacidade reivindicativa nem quem os represente. E se, eventualmente,
saírem à rua em manifestação mesmo que ordeira, sempre terão polícias disponíveis para impor a ordem pública .
No Estado em que vivemos, parece que a verdadeira Democracia foi adiada ou esquecida, ao mesmo tempo que a própria Liberdade vai sendo limitada por aqueles que não gostam de ser criticados ou dispõem do poder necessário para atuar com o “politicamente correto”, num tempo em que, cada vez mais, ter emprego e mantê–lo constitui uma verdadeira lotaria. É caso para dizer que, tendo acabado oficialmente a censura em Portugal, ela pode surgir em qualquer local de trabalho e não só, desde que o detentor do poder entenda que alguém o está a aborrecer. Certamente cada caso será um caso, mas estão criadas as condições necessárias para que o medo, ou o simples receio de desagradar a quem pode, de repente modificar a nossa vida, constituam causa para limitar a liberdade de muitos cidadãos.
Quero acreditar que serão situações raras, direi até pontuais, mas a verdade é que só a carência de oferta de trabalho, e possibilidade de a própria Lei facilitar os despedimentos são, por si só, fatores preocupantes e, salvo melhor opinião, abrem o caminho para eventuais “perseguições”, que mesmo quando ilegítimas, resultam em prejuízo do elo mais fraco. Estes sinais, que não referem casos concretos da vida real, são um alerta num tempo de muita injustiça social e onde a própria solidariedade e ética, já não são o que foram. Se todos fôssemos pessoas de bem, capazes de olhar para os outros com humanismo e respeito, certamente não se corriam os riscos a que aludo e não faria mesmo sentido admitir a existência de situações de censura. Porém, ainda recentemente, ouvi um trabalhador referir que o patrão dizia ”façam greve, que depois eu faço-vos a conta”!
Na verdade, raramente no setor privado alguém ousa lutar contra seja o que for, sendo certo que não será por tudo estar sempre bem ou porque os litígios sejam “sempre” resolvidos pelo diálogo. Cada caso será obviamente um caso, mas, falando claro, há hoje a ideia subjacente de que o direito à greve nada resolve em determinadas áreas onde qualquer conflito pode pôr o “poder” mal disposto.
Dito isto, não creio que o senhor Bispo venha a ser despedido, mas motivou contra si muita gente, especialmente políticos do sistema. É que esta ideia de falar em defesa do povo explorado ou sacrificado, sempre incomoda os defensores da austeridade, quando, além dela, não encontram medidas alternativas para solucionar os problemas do País e das pessoas. Vivemos efetivamente um drama de instabilidade social, e a pobreza já chegou à maioria da população. Entretanto, a comunicação social tem noticiado vários casos que põem em causa comportamentos, atitudes e favores que lançam um clima de suspeição deveras preocupante, descredibilizando pessoas e desmotivando os cidadãos habituados a lutar todos os dias pelo seu sustento e a trabalhar ou estudar para melhorarem a qualidade de vida. Haverá coisas que podem ser ditas com uma intensidade verbal menos agressiva, mas daí nunca resultará a sua verdade ou mentira!
Posto isto, e porque era intenção inicial do Governo esclarecer e falar verdade aos Portugueses, fica a questão para reflexão: afinal a Democracia, a Liberdade de expressão, a defesa dos direitos dos cidadãos ou o falar claro, ofendem o o poder político atual? Sinceramente, não gostaria de voltar a viver num País onde, em cada esquina, existisse alguém para escutar as minhas palavras! Falem claro ao povo, apresentem ideias para resolver a situação económica do País e dos portugueses, mas, ao mesmo tempo, deixem o povo falar claro e manifestar as suas opiniões. A Democracia impõe regras e uma delas será também a de saber ouvir. O País está doente, economicamente débil, endividado e com muita pobreza. Reconhecer tal situação ou entender e dizer que o Governo está a governar mal, nunca será o fim do mundo.




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