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Memórias da Rainha Santa

Sobre a Rainha Santa uso a assim dita obra de Maria Pilar Queralt del Hierro – esfera dos livros 2009. Investigando, em Zaragoza e Coimbra, fabulou não “uma hagiografia nem uma biografia tradicional, mas simplesmente um romance com as respectivas implicações de recreação e subjectivismo”.

Gonçalo Reis Torgal
20 Jul 2012

Narração “do que poderá ter sido a trajectória íntima de uma rainha culta, enérgica e corajosa num mundo pouco inclinado a reconhecer tais qualidades por detrás de um nome feminino”. Decorre da aventura de um Frei em longo viajar de Zaragoza a Roma, levando a Urbano VIII um velho manuscrito, diário da Rainha, certo de que se Maffeo Barbarini, “cabeça visível de Cristo na Terra”, o lesse, certa era a Canonização da Rainha que Leão X, em 1612, dissera bem-aventurada. Assim, Frei Ramón de Alquézar, um manuscrito em couro e uma peregrinação a Santiago fizeram da paciente esposa de D. Diniz, “Bom poeta e mau marido”, a Santa que a minha Coimbra venera e Portugal respeita. Canonização proclamada por Urbano VIII em 25 de Abril de 1625 – Festa a 4 de Julho.
É em 4 de Julho do ano que corre que enraíza esta Crónica que – embora a minha devoção pela Senhora, Rainha e Santa – não floresceu para narrar as virtudes santificáveis e santificadas de Isabel, Rainha de Portugal.
O caso é que, nas comemorações de 4 de Julho p.p. o Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Dr. Barbosa de Melo, deu um safanão no marasmo dominante no Portugal adormecido. Alto e bom som, autarca do PSD, criticou forte e feio o Governo de Coelho Passos Pedro. Insurgiu-se contra o absolutismo de Lisboa, como que aproveitando para se vingar nos portugueses não saloios do nada de soberania que resta. Na crítica incluiu os deputados da “província” incapazes, basbaques face ao poder e aos tachos, de bater o pé por quem os elegeu (verdade já aqui repetida). Calistos Eloi do tão actual Queda de Um Anjo camiliano. E não esqueceu as culpas do Portugal não Lisboeta, disputando poderes sem se unir contra o empenho do governo em desertificar o País em favor de desenfreado neo-liberalismo.
Mas não ficou por aqui o rejeitar a subordinação à teimosia governativa que conduz os portugueses a um sobreviver inquietante, isentando ricos e poderosos. Em Saudação à Santa Rainha, o Padre
Dr. Jesus Ramos clamou em favor dos desamparados e exortou o Governo a não olhar com desprezo para o desemprego, a falta de colocação dos jovens licenciados; para as necessidades dos “velhos”, dos doentes, das crianças, dos reformados e pensionistas, ou seja para o Estado da Nação que, dias mais tarde, Coelho Passos Pedro entendeu não ser de considerar. Pediu à Santa Rainha que iluminasse os Governantes, ausentes desta Festa de Coimbra, ao revés do costume antigo.
Finalmente, a Igreja, mesmo que só pela voz do Prior de S. Bartolomeu, ergueu voz pelo próximo, entendido não no sentido político dum próximo virtual, mas da realidade Cristã que está na lição do Bom Samaritano. Já era altura de a Igreja entender que o afastar das gentes da missa não se deve apenas à monotonia das celebrações, às homilias sem conteúdo, às deficientes condições acústicas dos templos, mesmo quando obras consideradas de arte (cf, Igreja do Marco). As gentes afastam-se por a Igreja Católica não oferecer o apoio que pedem e encontram, ludibriadas, na mistificação teatral das seitas. Da Igreja Católica espera-se empenhamento Social. Falando pelos desprotegidos, sem voz que os defenda. A Igreja tem de erguer Voz pela Caridade/Amor. A de que fala S. Paulo aos Cristãos de Corinto, dignificante da PESSOA. A oração do Padre Ramos foi pedrada no charco da nossa impassibilidade. Um gritar alto e bom som o “Se não, NÃO!”, com que o Povo obrigou o condenador de Inês a reflectir na leviandade governativa. Face ao real Estado da Nação não podemos calar. Não pode a Igreja escudar-se no, mal interpretado, “o Meu reino não é deste Mundo”. Não pode abster-se no “politicamente correcto” e calar os que falam com o anátema que Cresbon definiu no inesquecível “Os Santos vão para o Inferno”, título que reservara para a análise do abandono religioso nesta Nação que a Virgem distinguiu enchendo de luz a Azinheira de Fátima, preterido pela reacção de Coimbra em tempo festivo da sua Padroeira. Não pode mostrar não ter aprendido com a fábula de Poe, na “Máscara Vermelha”, do príncipe que, pela peste, encerrou as portas do palácio e seguiu em festa sobre festa. Vindo mais próximo, não pode a Igreja, não podemos nós, dar razão a Torga por não passarmos de pacíficos protestantes.
Nota – Escrita esta Crónica, D. Januá-
rio Torgal Ferreira falou pelos deserdados. Folgo ver a Igreja (embora declarando que não se revê nas palavras do seu Bispo – voltamos sem comparar, D. Januário não consentiria, ao tempo do incómodo Bispo do Porto) indo para lá de  modesto Prior, falar da Caridade (Amor) que, volto a S. Paulo, vai além da língua dos homens e dos anjos [pois] se não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.




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