Fotografia:
Braga vista pelos tacões de Miriam

Por sortilégio que aqui não cumpre, de modo algum, explanar, fui também a Braga. Levava na ideia o que sobre essa terra deslustrou o escritor Miguel Torga, referência em hora certa com proveito colhida na obra sobre Portugal de David Nasser (Portugal, meu avôzinho. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1965), súmula de uma comovida reportagem publicada há coisa de cinquenta anos n’O Cruzeiro.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
1 Jul 2012

Na bagagem, não ficara de fora a referência de David Nasser ao apartamento do embaixador Rafael Barraza “inundado de Cristos”, a propósito do qual recordou que Mercedes lhe houvera dito “existir um pelos lados de sua Guatemala, esculpido por um português em desespêro de saudade de Braga, pois deixara, aos pés da Santa Cruz, o seu nome e a sua cidade”. Conta Nasser que, entrando em todas as igrejas de que lhe falara Maria Amélia, não encontra o “Cristo Minhoto”. Também a mim não me foi dado vê-lo e se o visse quase certo seria que os insuficientes detalhes no livro consignados me impedissem de o identificar.

E também não vislumbrei o Cristo que horrorizaria Nasser, “um Cristo de expressão má”, que o escritor e jornalista se persuadiu ser o resultado de um autorretrato do frade que o esculpiu (porque a obra é de um frade do convento em que Nasser se encontra, e cujo nome, bem avisadamente, não se dignou explicitar). “Devia estar zangado com Deus, com a religião e Portugal”. Zangado com a imagem devia estar Nasser, posto que a seguir se vai embora, retomando “a estrada inexorável do verde”.

A coletânea de notas sobre Braga tomadas de David Nasser seria útil, mal chegado à cidade, no momento em que se impunha esquecer os olhos e tratar da barriga. Busquei o escrito com o conselho sobre onde se pode comer o melhor arroz e, já conformado com a perspetiva de novo falhanço, pesquisei se sobrevivera o Inácio, “uma casa de pasto com os mais puros vinhos da região”. Sobrevivera e a idade apurara o requinte de uma vitela assada e uns filetes de pescada que não olvidarei.

O tempo não sobejou para me afastar do centro desta aprazível cidade. Aprazível, se bem que minha colega se tivesse queixado de a cidade não ser amiga de mulher que goste de desfilar, produzida, a sua beleza pelas ruas. É que os tacões altos se prendem nas juntas dos passeios, como com Miriam sucedeu por quatro vezes em pouco menos de uma hora. Miriam que conhece Portugal como eu ansiaria me diz que não se encontrará qualquer terra com passeios tão mal arranjados, tão disparatados.

Os percalços e o cuidado que se impôs para que Miriam sobrevivesse incólume a um passeio de tacão pregou nossos olhos no pavimento bracarense e o que sobreveio ao olhar se revelou insólito. Traça-se um reduzidíssimo perímetro e vê-se o chão encadernado com pedra de quatro ou cinco formas diferentes. Aumenta-se o perímetro e as formas se multiplicam (e no hotel, segredam-nos que, em alguns sítios, foi extraído granito do bom para, em seu lugar, se amanhar material de qualidade mais fraca). Os passeios de Braga têm uma tamanha variedade que ao visitante deveria ser oferecida uma gramática do chão. Com ela munido, talvez se pudesse alcançar que tropeçante ideia conduzirá o plantador de tão desfasadas pedras de todos os tamanhos, gêneros e feitios, colocadas sem o cuidado, a beleza e a solenidade que uma cidade antiga demandaria.




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