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Mil vezes mais

Quarenta anos de intervalo. Nos EUA, em 1968, o diretor-geral da General Motors usufruía de uma remuneração mensal (salário e outras regalias inerentes à função) 66 vezes superior à remuneração de um empregado médio da empresa. Por finais da primeira década desde século XXI, o diretor-geral da Wal-Mart, outro grupo gigante dos EUA, ganhava um “salário global” superior 900 vezes à remuneração de um empregado médio da mesma empresa.

30 Jun 2012

Números redondos, e para que nos abismemos mais com a ciclópica diferença, este executivo chefe da Wall-Mart ganhava, pois, cerca de mil vezes mais do que o empregado médio que tutelava. Ainda segundo os dados de 2005, a riqueza da família Wall-Mart equivaleria ao rendimento dos 40% mais pobres dos EUA (cerca de 120 milhões de pessoas).
Por cá, no remanso lusitano, onde o povo vergastado pela crise recebe dos governantes encómios pela sua paciência, recentemente os media evocavam os casos de um “ex-banqueiro” aposentado (de um banco quase falido, não fosse o apoio público) com a sua reforma mensal de 175.000 euros e ainda a “sentença” de um ex-quadro da Goldman Sachs, abonado por um rendimento da ordem do quarto de milhão de euros anuais, que prescrevia, impetuoso, que a ultrapassagem da crise nacional, em nome da competitividade, exigia que se baixassem – urgentemente, vincava – os salários dos portugueses. Neste último caso, o senhor António Borges, na linha da troika, e depois do vendaval de sacrifícios já exigidos ao cidadão comum, instava o Governo a que promovesse a baixa dos rendimentos dos assalariados – de rendimento médio ou baixo, naturalmente – fingindo ignorar que o salário mínimo não permite àqueles que vivem apenas desse rendimento fugir da categoria sociológica de “pobres”. Na arena internacional, a senhora Christine Lagarde, diretora do FMI, auferindo cerca de meio milhão de euros anuais livres de impostos, num registo assemelhado, censurava a “pieguice” dos muitos gregos aflitos, pois declarava que o que deveras a preocupava eram as mal nutridas crianças da África negra.
Vivemos num tempo de hipérboles e por isso alguns leitores, conformados ou indiferentes, tenderão, porventura, a reter estes salários ou pensões típicas de nababos como exemplos que servem para ilustrar marcas da insensatez no mundo atual ou, de um modo ainda mais displicente, tenderão a fixá-los como tímidos candidatos ao registo no livro de recordes do Guiness. Por cá, quanto à sobranceria ou soberba de quem, do alto do seu escandaloso conforto, prescreve conselhos revivificadores da economia nacional assentes na expiação do défice público pelo aumento da pobreza dos já muito debilitados assalariados, nada que espante os mais atentos.
De facto, na senda do triunfo da doutrina neoliberal a partir dos anos 80 do século passado (é preciso devolver dinheiro aos mais ricos, aos empresários, para que estes invistam mais, sentenciavam Milton Friedman e seguidores), nas últimas décadas, a par de algum incremento do PIB, as desigualdades sociais alargaram–se um pouco por todo Ocidente desenvolvido, acossando-se ainda os argumentos das equilibradas sociais-democracias do norte da Europa.
Subsistindo o direito à indignação, perante o confronto entre a míngua de muitos e a espantosa opulência de uns quantos, impõe-se refletir, denunciar e reagir. Aparentemente, o paradigma neoliberal começa a vacilar. Desde logo, pode reter-se que, com a crise financeira emergente nos EUA e na Europa após 2008, a retórica da livre empresa abriu, uma vez mais, o flanco, pois os bancos ou as seguradoras, quando aflitos, passaram a requerer o socorro do Estado, ou seja, dos contribuintes.
Hoje, na Europa, a prolongada crise do euro e a correlativa especulação sobre a dívida de vários países europeus remete ainda para o papel dos governos, já que o livre curso dos designados “mercados” parece assumir uma lógica predadora e algo irracional (e enquanto François Hollande, Mário Monti, e até Mariano Rajoy reclamam – e parece que o conseguiram – maior intervenção de mecanismos públicos comunitários, já na Alemanha, a grande beneficiária do euro, parece que a senhora Merkel pouco aprendeu com a História).
Olhando, pois, para a História, e não ignorando os males económicos e sociais resultantes das experiências dos estados totalitários, comunistas ou fascistas, pode reter-se que pior do que a existência de Estado a mais será a existência de Estado a menos. Ontem como hoje, as pessoas comuns privilegiarão a segurança à Liberdade. E se o Estado, ou seja, os governos, em nome da alegada preservação da liberdade ou da primazia da iniciativa individual, continuarem a ignorar as chagas sociais crescentes, se continuarem a propor caridade em vez de solidariedade ou políticas públicas favoráveis para o emprego, colocarão a própria liberdade em perigo.




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