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Exame nacional de biologia e geologia – a história repete-se

Ainda antes de iniciar a “safra” habitual de “correção” das provas nacionais de biologia/geologia, disciplina que este ano não lecionei, e mesmo sem ter falado com alunos, já atendia colegas destroçados com o tipo de prova a que, mais uma vez, os alunos foram sujeitos. É impressionante a desconformidade da prova em relação ao que os programas recomendam. Nem vale a pena falar no volume de papel: quinze páginas!

José Batista da Ascenção
29 Jun 2012

Não se percebe. A biologia nunca foi uma disciplina difícil, pese embora a tendência para alguma memorização e uma certa ausência de prática experimental, muito por causa das (más) poupanças que levam a que não haja material de laboratório abundante nem um funcionário que possa dar apoio aos professores nas atividades laboratoriais.
Dói imenso ver que há alunos que estudaram, que até sabem a matéria, mas não conseguem descortinar o objetivo das questões. Parece que quem faz as provas não partilha a ideia de que as perguntas devem ser curtas, claras e simples (não se confunda simplicidade com o grau de dificuldade das respostas). Tome-se este exemplo: “A abertura de bacias oceânicas está associada à génese de plataformas continentais, por vezes de grande extensão. Explique de que modo a abertura das bacias oceânicas e o aparecimento de formas de vida possuidoras de exosqueletos rígidos contribuí-ram para a relativa abundância do registo fóssil em rochas do período Câmbrico”. Muitos alunos sabem a resposta, a qual, de resto, já está contida, em parte, no próprio enunciado (porque os esqueletos são rígidos fossilizam melhor…). Eu preferia que o que é pedido fosse redigido, por exemplo, assim: “Durante o Câmbrico formaram-
-se bacias oceânicas extensas e pouco profundas e apareceram e desenvolveram-se seres vivos com determinadas caraterísticas anatómicas. Explique por que ocorrem tantos fósseis em rochas daquele período”. Esta formulação tinha a vantagem de não perturbar os alunos: se a resposta já está na pergunta o que será que é para responder? Ao mesmo tempo homenagea-va-se a sua inteligência, que neles é tão abundante e fértil quanto sempre foi.
Claro que temos um problema sério com a (falta) de preparação de muitos alunos em matéria de língua portuguesa. Entendem mal o que está escrito, não compreendem bem a linguagem dos professores nem, por vezes, entendem o que eles mesmo escreveram! Mas não são todos, obviamente. Há mesmo uma fração deles que escreve lindamente, melhor do que eu escrevia com a juventude deles. Então, por que falham uns e outros nas provas de biologia/geologia? Vejamos:
– Os professores que agora ensinam são os mesmos que ensinavam há uma dúzia de anos e conseguiam bons resultados;
– Esses professores têm formação de origem e frequentam formação, por vezes paga, e estão a par do que se faz em pedagogia, isto é, estão atualizados;
– Os alunos não são menos inteligentes do que outrora nem, em termos globais, revelam menos capacidades.
Não é muito difícil irmos aos pontos fulcrais do problema:
– Os programas que entraram em vigor em 2003/4 estão mal feitos, especialmente o de biologia do 10.º ano (que mais parece ter sido feito para impedir que os alunos aprendam e que os professores consigam ensiná-los; há mesmo partes dele que nenhum aluno pode ficar a saber…). Redigidos naquele linguajar esotérico a que se chamou “eduquês”, sugerem metodologias e atividades que não preparam o aluno para o tipo de exames que tem vindo a ser elaborado.
– Depois, há os exames, por vezes com questões erradas, outras vezes com questões fora do âmbito do programa e quase sempre servidos por textos introdutórios que mais parecem armadilhas do que elementos de ajuda para os alunos. Há também a insistência em perguntas de opção, o que leva a que, mesmo em situações de exame, os alunos escrevam pouco. Ora, alunos que escrevem pouco rapidamente passam a não gostar de escrever e… a não escrever. Logo, quando é preciso escrever…;
– E há ainda os critérios de classificação que, por vezes, são “estratosféricos”, permitindo que alguém que não respondeu a nada, apenas espalhou (algumas) palavras num pedaço de folha, tenha mais de metade da cotação (ex: oito pontos), e quem respondeu claramente, e se percebe que entende e sabe a matéria, só porque não disse uma palavra que estava na mente de quem definiu os critérios, perca um terço da cotação (por ex: dez pontos). A diferença entre o primeiro caso e o segundo fica-se em… duas décimas!
Estes fatores explicam que, em várias dezenas de provas que me couberam, as classificações iguais ou inferiores a nove totalizem cinquenta e cinco por cento do total!
A não ser que me tenham calhado os alunos destituídos, o que não acredito.
Para eles e para todos os que estudaram, o meu abraço de solidariedade. Ah, e outra coisa: a biologia é lindíssima. E também é linda de ensinar e de aprender. Sempre foi. Acreditem e digam, um dia, aos vossos filhos.
Obrigado.




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