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Cuidado com os burocratas

Eles estão por toda parte. Afinal, o que seria do mundo sem eles? Hannah Arendt deixou-nos ver que não eram monstros aqueles que organizadamente construíram o Holocausto. Eram simplesmente pessoas comuns a cumprirem os seus valiosos deveres de trabalhadores. A seguirem normas e ordens.

Márcio Carneiro de Albuquerque
29 Jun 2012

A contabilizarem quantos litros de gás seriam necessários para matar quantas pessoas em um determinado tempo e sobre determinadas condições ideais. Com os olhos voltados apenas para as metas a cumprir, para o regulamento interno e a execução do “bom” trabalho. Eles estão em toda parte. Anónimos em repartições públicas, em cargos de prestígio no governo, no escritório de qualquer empresa ou gerenciando uma loja de departamentos. É o sujeito que acha que o bom médico é aquele que atende mais pessoas, que o bom “garçon” ou cozinheiro é aquele que serve mais rápido, que o bom professor é apenas aquele que mantém sua caderneta em ordem e cronometra o tempo de sua aula. Que o bom funcionário é aquele que nunca se atrasa. Que o bom motorista é aquele que nunca fez uma bobagem no trânsito.
Desenvolvi uma estratégia infalível para reconhecê-los. Fiz isto porque os temo. Temor alimentado ao longo dos anos, por ver o estrago que são capazes de fazer. Penso que possuem um poder sobre-humano para fazer o mal a quem estiver ao redor. Temo-os mais do que aos assaltantes e psicopatas; estes, por incrível que pareça, com olhos bem atentos, podemos desviar-nos dos seus caminhos. Dos burocratas, não. Como psicólogo, vi inúmeras pessoas adoecerem física e mentalmente quando, por infelicidade, tiveram de conviver com eles. Manipuladores que são, tratam as pessoas como se fossem objetos ou mecanismos de uma engrenagem, papeis ou números, recursos “humanos” tal como existem recursos físicos ou tecnológicos.
Normalmente, trabalham ou fingem trabalhar mais do que qualquer pessoa. Não há no mundo outro assunto que lhe saia da boca senão o trabalho; não há espaço para o lazer ou para família; para quaisquer coisas que não sejam as normas da empresa, as metas a atingir e a organização do trabalho. Eles nunca adoecem; do mesmo modo, acreditam que todo aquele que esteja doente na verdade está dando um golpe na empresa. Eles não possuem problemas pessoais ou familiares. A família não lhes é importante. Por isto e outros motivos, estão sempre “inteiros”, “motivados” e “prontos”. Corriqueiramente, andam com algum papel na mão, que pode ser algum documento “importante”, algum trecho do vade mecun, um rabisco qualquer. São críticos ao extremo. Nada que se faça é bom o suficiente. São contumazes desleais, falam pelas costas dos próprios colegas e do chefe, com o único objetivo de ganhar prestígio e semear a ideia de que, se fosse o chefe ou alcançasse uma melhor posição, tudo seria melhor: a lâmpada não estaria queimada, a água seria da suíça e o cafezinho o mesmo servido no shopping. Tudo seria milimetricamente organizado, esquadrinhado, polido e estéril.
Afirmo: o mundo seria melhor sem eles. Seríamos mais felizes, menos estressados e mais solidários. Seríamos menos atentos ao relógio e mais atentos aos afetos. Enfim, ocupar-nos-íamos do que verdadeiramente importa em qualquer lugar: as pessoas
e a vida.




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