Fotografia:
O (in)tranquilo Bento

Sempre nos habituou Paulo Bento, mesmo nos seus tempos de futebolista (e, por maioria de razão, nos seus tempos de treinador do Sporting), a uma atitude de “tranquilidade”. A ponto de, todas as vezes que o ouvia a falar na televisão, me recordar de imediato do grande filósofo romano-cordovês Séneca (4 a.C. – 65 d.C.) e, particularmente, da sua obra “De tranquillitate animi” (Sobre a tranquilidade da alma).

Carlos Manuel Ruela Santos
28 Jun 2012

Lúcio Aneo Séneca defendia o estoicismo como a maior das virtudes humanas, considerando que só a imperturbabilidade da alma, denominada ataraxia (termo, aliás, utilizado pela primeira vez por outro eminente filósofo da Antiguidade, Demócrito, que vivera cerca de 400 anos antes de Séneca) – só a imperturbabilidade da alma, dizia, era passível de proporcionar ao ser humano o absoluto sentido da “liberdade” existencial…
Esta filosofia estoica, preconizada por Séneca, assentava que nem uma luva ao atual selecionador sempre que lhe cabia discursar – sendo até cognominado, nos meandros do jornalismo nacional, como “o senhor tranquilidade”.
Ora, após o apuramento da nossa Seleção para os quartos–final do Euro-2012, Paulo Bento veio a público insurgir-se, com inusitada virulência discursiva, contra os “críticos” – dirigindo-se particularmente, embora sem jamais os nomear, a Carlos Queirós e a Manuel José. Confesso que considerei essa “atitude” muito estranha em Paulo Bento, dado os seus antecedentes de “tranquilidade” – pois, nesse contra–ataque aos “críticos”, revelou que, ao menos por uma vez, se deixara dominar pelos “afetos” (como Séneca designava os “sentimentos”), e perdera, ainda que por breve trecho, o sentido “estoico” que o carateriza como treinador.
Há, porém, que ter em consideração a relevante “circunstância” de Paulo Bento ter de assumir, por inteiro, a sua condição de gestor dos múltiplos “egos” que preenchem a nossa Seleção – e, mesmo correndo o risco de perder a fama em que se deitou (a da “tranquilidade”), julgo que fez bem, tenha ou não tenha razão, em vir a terreiro “defender os jogadores” e os métodos de gestão do estágio definidos pela sua equipa técnica e pelo “staff” da Federação. E isto porque, ao contrário do que acontece com as restantes três equipas que chegaram às meias-finais deste Campeonato da Europa, Paulo Bento tem de “gerir” com mãos de cristal um grupo heterogéneo de futebolistas, provenientes de várias equipas nacionais e estrangeiras…
Recordo que a Alemanha tem uma seleção formada por oito jogadores do Bayern de Munique (Neuer, Schweinsteiger, Müller, Badstuber, Lahm, Kroos, Boateng e Gomez); recordo que a Itália conta com sete jogadores da Juventus (Buffon, Chiellini, Marchisio, Giaccherini, Barzagli, Monucci e Pirlo); e recordo que a Espanha conta com a “espinha dorsal” do Barcelona (Piqué, Iniesta, Xavi, Fabregas, Pedro Rodriguez, Busquerts e ainda Valdés) e mais cinco atletas do Real Madrid (Casillas, Arbeloa, Sérgio Ramos, Xavi Alonso e Albiol). Ou seja: à exceção da Rússia (que tinha sete jogadores do Zénit e foi eliminada – a meu ver por negligência “orgulhosa”…), apenas Portugal chegou às meias-finais com uma equipa constituída por uma “manta de retalhos”: a nossa Seleção tem, no máximo, três jogadores de uma mesma equipa: Sp. Braga (Hugo Viana, Custódio e Miguel Lopes), FC Porto (Rolando, Moutinho e Varela) e Real Madrid (Coentrão, Ronaldo e Pepe).
Assim sendo, não foi (não é) fácil para Paulo Bento “gerir”, relacional e taticamente, um conjunto de futebolistas que quase só se reúne aquando dos jogos da Seleção. Ao contrário dos técnicos das restantes três “semi-finalistas”, que já receberam uma equipa quase/praticamente feita…
Tenho para mim, por isso, que Paulo Bento agiu adequadamente quando veio à liça e se “exaltou”. E a prova aí está: afinal, ao contrário do que os “críticos” vaticinavam, Portugal chegou até onde (muito) poucos esperavam!!!




Notícias relacionadas


Scroll Up