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Palavras que o vento não leva

Um dos discursos mais serenos e abalizados recentemente proferidos, foi o do Prof. Sampaio da Nóvoa no passado dia 21 de junho, aquando das comemorações do dia de Portugal, quer pela mensagem, quer pela lucidez, firmeza e convicção das suas palavras.

Domingos Alves
26 Jun 2012

Com efeito, o ilustre conferencista, foi polidamente implacável na breve análise que fez de alguns aspetos da nossa política sócio/económica,  perante algumas das mais altas figuras da nação ali presentes e que, por certo, uma vez mais, devem ter chegado à conclusão de que não basta  falarmos e escrevermos muito, para quase sempre dizermos tão pouco; palavras e expressões repetitivamente protocolares e, por isso mesmo, desprovidas de real conteúdo a marcar a diferença…
“Olhou o passado, através de um texto de Alberto Sampaio, historiador do século XIX, que retratou o Portugal de sempre e, portanto, o do nosso tempo” (citei Fernando Madrinha, no Expresso de 16 de junho ): “Nos momentos de prosperidade não tratámos duas das questões fundamentais: o trabalho e o ensino. Nos momentos de crise é tarde…” – palavras de Sampaio da Nóvoa, que mais disse (…): “a regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos” e neste momento já “começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização”. (…) “Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. A arrogância do pensamento inevitável é o contrário da liberdade. E nestes estranhos dias, duros e difíceis, podemos prescindir de tudo, mas não podemos prescindir nem da liberdade nem do futuro”. (Sampaio da Nóvoa citado por  Nicolau Santos, igualmente no Expresso ) .
Falta, pois, ainda saber se o acordo e as recomendações da troika, assim tão levados “à letra”, gerarão uma fonte de justiça futura ou  uma catadupa de desigualdades ainda maiores.
Também a educação foi objeto de análise de Sampaio da Nóvoa, como é citado por Fernando Madrinha no dito Expresso: “Nas últimas décadas, realizámos um esforço notável no campo da educação (escola pública), das universidades, da ciência. É uma base necessária, mas não é ainda uma base suficiente. O nosso futuro passa pela forma como conseguirmos ligar as universidades e a sociedade, pela forma como conseguirmos que o conhecimento esteja ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas”. Palavras sábias estas que, por certo, não se escudam em meras reflexões pontuais ou de circunstância, mas antes em profundas convicções democráticas para frontalmente dizer o que vai na alma.
Finalizo, uma vez mais, citando o colunista Fernando Madrinha: “A sua intervenção foi uma lição de História, uma lição de esperança e, acima de tudo, uma lição de política para aqueles que nos governam”. E, se me permitem, concluo com Nicolau Santos: “Há muito quem fale sobre o país todos os dias, ou em ocasiões solenes. Mas são poucos os que têm algo a dizer e sabem fazê-
-lo com a simplicidade que vem do conhecimento, da sensibilidade e da lucidez. Quando tal acontece, temos o dever de ouvir e, se possível de espalhar a mensagem”.
Foi o que, modestamente,  procurei fazer  nestas breves linhas.




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