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O sol e as circunstâncias

O sol faz lembrar férias. Mais o de junho, que é quando muitos portugueses recebem o subsídio de férias. Corrijo, recebiam. Ficaram sem ele este ano e não o receberão durante muito tempo. Isso, na melhor das hipóteses. Veremos como correm os ventos. Se forem de feição, talvez a possibilidade exista. Se tal não suceder, lá se vai a prática salutar de beneficiar de algum descanso, quase sempre merecido, fora do local habitual de residência.

Luís Martins
26 Jun 2012

No último fim de semana, evocou-se S. João Baptista, o padroeiro da cidade de Braga, e as ruas engalanaram-se. A festa fez–se por todo o lado, nas ruas da capital do concelho e nas aldeias. Mas com muita parcimónia, que os tempos são de contenção e de crise. Não faltaram os Gigantones e Matrafonas, o fogo de artifício, o cortejo dos Carros alegóricos das Ervas, do Rei David e dos Pastores, nem a Procissão dos Santos Populares, a culminar o dia de aniversário natalício do santo popular. Também a noitada de sábado, no dia anterior, contou com a presença de muita gente. Mas sentiu-se fundo que nem tudo estava bem. Culpas atribuídas à crise que assola a região e o país.
O responsável maior não esteve presente. Foi, há um ano atrás, estudar ou de férias para Paris, não sabemos. Mas sabemos como deixou o país. Uma desgraça! As ondas de choque estão ainda a sentir-se, apesar de já ter passado um ano. Os amigos que deixou dizem-nos que podia ter ficado, mas sabemos que depois tudo seria muito pior. O país inteiro, apesar das agruras, ficou mais sossegado, muito embora as consequências. Foi preferível assim a estarmos eventualmente melhor agora e ficarmos em situação mais dramática ainda dentro de pouco tempo. Estamos magoados, esmagados pelo peso das responsabilidades e da austeridade, mas estamos a conseguir aguentar-nos. Pelo menos, por agora. Já estamos a arrumar a casa, a compô-la da tempestade que a abalou profundamente e a esburacou de cima a baixo.
Mas, nem tudo foi mau, apesar do desconforto e do medo pelo futuro. A tormenta levantou também as telhas velhas do telhado a precisar de uma lavagem por equipamento de alta pressão. Ficamos com a careca descoberta. De um momento para outro, verificámos que estávamos demasiado endividados sem o sabermos. Incapazes e quase sem aval para um pequeno empréstimo que fosse. Por isso nos admirámos quando nos impuseram austeridade. Sempre nos disseram que o país ia bem, que lá fora é que havia problemas, que estávamos salvaguardados na nossa pequena geografia!
Todos os dias nos lembramos disso. Agora, mais particularmente. É que muitos não irão de férias, porque estão desempregados e em dificuldades ou simplesmente porque não receberam o subsídio como antes acontecia. Os funcionários públicos e os pensionistas estão e estarão nessa situação, pelo menos até 2018. O Senhor Manuel, que fora carpinteiro, desabafou há dias comigo: “Andamos, eu e a minha esposa, uma vida inteira a trabalhar, e agora, que estávamos a contar gozar um pouco dos dias que nos restam, sabe Deus quantos, é que nos acontece isto! Que culpa temos para não receber o magro subsídio de férias?”. O Rogério, professor do ensino secundário, que acompanhou o desabafo, retorquiu: “É verdade, Sr. Manuel, eu também não vou de férias este ano e não sei quando poderei ir, mas há pessoas ainda pior do que nós. Tenho colegas, com dois e três filhos de tenra idade, que estavam a contar com parte do subsídio para regularizar algumas contas atrasadas e não o vão poder fazer, estão desesperados; e outros, com a revisão do carro prevista e o seguro para pagar, coisas que costumavam fazer nesta altura, não sabem como resolver a situação. Há muita gente entalada, acredite”.
Exemplos destes não faltarão.
De uma forma geral, as pes-
soas têm-se aguentado, mas estão a ficar exauridas e desesperadas. Que o digam os comerciantes que se instalaram nas barracas ao longo da Avenida da Liberdade, enquanto duraram as festas sanjoaninas: “Ó menina, compre-me um manjerico, por amor de Deus, ainda não vendi nenhum hoje. É baratinho”. Ou então, desta outra forma: “Ó senhor, compre-me qualquer coisinha. Não consigo vender nada”. Ouvi pedidos aflitos desses e, confesso, fiquei entalado. Os responsáveis estão ausentes. No estrangeiro ou bem colocados na vida. Não sei se têm perdão – quem sou eu para resgatá-los! – mas sei que, no entanto, não foram objeto de qualquer sanção ou beliscão por parte de nenhuma autoridade. A responsabilização civil e criminal pela gestão danosa do património de todos é ainda uma miragem e isso não nos tranquiliza. Pelo contrário, deixa-nos apreensivos e desconfortáveis. Desassossegados. Será que Passos Coelho vai conseguir implementar o que pensa sobre o assunto e tranquilizar-nos definitivamente?




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