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Eu acho que!

Menina e moça me levaram, da tranquilidade da casa do não saber, pelas veredas escarpadas e sinuosas da busca do conhecimento. Aventura infinita, horizonte sem fim. A verdade total não se revelava e fazer “marcha à ré” já não era possível. Deve ter sido este o sentimento de Fernão da Magalhães, quando se aventurou na confirmação de que a terra não era plana, como até então tinha sido defendido pelos homens da cosmologia aristotélica.

Maria Susana Mexia
26 Jun 2012

O caminho era só um: ir em frente. De nada adiantava voltar para trás. O ponto de partida era, inevitavelmente, o ponto de chegada, o círculo estava confirmado e o etaerno retorno nos conduziria à espiral do saber, cada vez mais ampla, mais elevada e aberta a outras descobertas.
Viver é fazer uma viagem em torno de nós mesmos, é passar pelo mundo em “busca da terra prometida”, um apanágio dos crentes na existência da Verdade. Desta viagem ficam excluídos os cépticos, os homens de pouca fé, os que não acreditam que “o conhecimento é o nosso destino”, como ensinou Carl Sagan, o menino bonito da radiofísica, o génio de que a Nasa se apoderou, o cientista mais amado e criticado que ousou mostrar-nos um universo povoado por biliões e biliões de estrelas, poeiras, buracos negros e tudo o mais que a sua morte precoce não deixou que nos transmitisse.
A nossa civilização descobriu a razão, aprendeu a usá-la, a pensar, a refletir sobre o concreto e sobre o abstrato. O homem, graças à ciência e à tecnologia, desbravou florestas de mitos, terrores, preconceitos e falsas crenças.
Aprendi que o pouco que ia sabendo cada vez ficava mais aquém da Verdade, essa certeza que nos transcende, que paira sobre nós, no alto dos Céus. Verdade, uma certeza que nos supera, nos faz crescer, nos eleva do térreo patamar duma vida sem ideias, sem ideais, ausente de toda e qualquer dimensão ou componente superior que nos atrai como um íman divino.
Para além do saber que não sei, acresce-me uma perplexidade preocupante em cada dia que passa e sou mais agredida, intoxicada e alienada pelas milhentas opiniões de todos os que não só julgam saber, como se arvoram em mestres perfeitamente convencidos de que as barbaridades que dizem são o suprassumo da mais perfeita inteligência e não duma real e arrogante imbecilidade.
Uma amigo meu chama-lhes, eufemisticamente, “achistas”, na medida em que todos acham que… e, peremptoriamente, fazem lei do seu achar, não admitindo sequer a vaga hipótese de ser exatamente ao contrário. As vistas curtas não permitem enxergar mais longe, admitir outras nuances, impelir na busca de mais peças do Puzzle para o ir completando numa abrangente visão do todo, do perfeito e da harmonia da obra terminada.
Dizem os entendidos que, com o rolar dos anos, a nossa memória recente se esvai e nos recorremos da memória passada. Talvez por isso me recordei de, há muito, ter estudado, algures, as fases, patamares ou estádios, conforme lhe queiramos chamar, do Conhecimento Humano face ao Saber e à Verdade.
1º. Ignorância ou ausência de conhecimento em relação a determinado assunto. O homem erra, mas ignora que o faz. Se, eventualmente, afirma que sabe com o fim de enganar os outros, toma o nome de mentiroso, mais grave do que só ignorar;
 2ª. Dúvida, uma hesitação da inteligência quanto à verdade ou falsidade de determinada coisa ou questão. Pode ser uma dúvida espontânea, reflexiva, sistemática, metódica, crítica ou cética;
3ª. Opinião, uma tendência da inteligência para aderir a algo que se afigura verdadeiro, sem excluir a possibilidade de não ser;
4.ª Finalmente, vem a certeza ou adesão da inteligência ao conteúdo de um juízo que tem por verdadeiro. É a certeza sem dúvida e a consonância do pensamento com o real que se chama Verdade. Esta é objetiva, existe e foi captada tal qual é pela inteligência do homem. Todavia, em Ciência, a verdade foi substituída por “probabilidade máxima”, na certeza de que o seu progresso anulará ou descobrirá novas leis, novos conhecimentos, implementará novas conclusões que, a seu tempo, também virão a ser ultrapassadas.
A Verdade não é um estado e muito menos uma coisa, mas uma busca continuada e um incessante progresso. Não é absoluta nem relativa, mas relacional e progressiva.
O homem foi feito para procurar a Verdade e não para a possuir, afirmavam os primeiros filósofos, que se consideravam peregrinos do saber mas, jamais, sábios. E é aqui que eu bloqueio. Afinal, a afirmação da certeza poderá ser antes uma revelação de ignorância extrema, do limite sem humildade de que “nada se sabe, mas tudo se imagina”, no dizer de Pessoa, na humildade das almas grandes, onde o modesto veio poético é confundido com devaneios, perversões que a maldade dos homens escraviza e agrilhoa no fundo da Caverna, o lugar das sombras, das falsas crenças e da recusa de ascender mais alto, ao sol da Verdade que redime e enaltece.




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