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Verão, peregrinação interior

O tempo de férias aproxima-se e, pesem embora as preocupações, a quebra de rotina e algumas mudanças na nossa vida quotidiana são muitas vezes, uma necessidade que nos pode permitir recomeçar as nossas ocupações com outra energia e talvez com outras ideias.

Hermínio Veiga da Silva
24 Jun 2012

Esta quebra de rotina, que a chegada do verão, nomeadamente, os meses de julho e agosto, introduz nas nossas vidas, (com viagens mais próximas ou longas, mais curtas ou demoradas, movimentos de vária ordem, alterações ao quadro quotidiano…) podemos fazer dela, para cada um de nós, uma espécie de peregrinação interior.
Encaremos este tempo como se a vida nos solicitasse que a escutemos de outra forma. Provavelmente, é disso que se trata, mesmo que se não diga. É com esse imperativo que cada um de nós, mais ou menos consciente ou inconscientemente, luta: a necessidade de encontrar a vida na sua forma mais genuína. Se a vastidão azul do mar tantos seduz, talvez seja porque essa imensidão nos lembra a pequenez da nossa própria existência. Ficamos perante nós próprios e a nossa fragilidade enquanto seres cuja existência é bem limitada e continuamos a peregrinar.
Quando, subindo às montanhas, procuramos o silêncio e os belos sons da natureza, descobrimos outra dimensão do mundo real, ao captar dentro de nós a sua forma mais luminosa. Esse espanto para os olhos é o sinal claro de uma visão espiritual e interior. Apreciar as dádivas da natureza, é acordar dentro de nós o sentimento do bem que, vezes de mais, permanece adormecido, embalado em coisas menores e materiais, sedento de mergulhar na novidade da vida com mais simplicidade e abertura conforme a natureza.
Se vamos para outras cidades e nelas procuramos pessoas, museus, igrejas, uma caraterística diferente de beleza que já não vivemos no quotidiano, mas ainda nos espantamos. Viajamos por dentro de nós mesmos e continuamos a nossa peregrinação.
Quando simplesmente, vivemos numa demorada experiência do tempo (refeições sem horas e conversas mais prolongadas, encontros imprevistos e festejados) é porque procuramos nessa experiência o sabor diferente da nossa própria existência. Este tempo, livre do tempo, pode ser mais uma etapa desta nossa peregrinação, a descoberta da nossa humanidade quase nunca presente nas exigências do viver.
Esperamos pelo verão com o sentimento de quem espera outra vida, (às vezes, no final, com um trago amargura e de alguma desilusão). Julgo que não é uma vida estranha e fantasiosa que nos atrai, mas uma vida que realmente nos pertença. Por isso é tão decisivo que as férias sejam vividas com espírito aberto, como um tempo que cada um possa moldar à sua própria condição. Que cada um tenha o espírito criativo suficiente para descobrir, nos merecidos dias de paragem na sua vida quotidiana, um caminho dentro de si, uma peregrinação que seja de libertação pessoal a partir do seu próprio interior, dando-lhe um sentido mais integral de pertença ao conjunto da humanidade.
O repouso é um tempo privilegiado para a procura, para levantar os olhos e o espírito, separando-nos daquilo que é comezinho,  para subir ao cimo do nosso ser e avistar mais longe, mais alto e mais claro. É procurar a vida na sua totalidade e apaixonar-se por ela, com todos os seus problemas e obstáculos.
No final, uma certeza: subir ao alto é o objetivo final de toda a peregrinação. Uma peregrinação pessoal não foge a esse objetivo.




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