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As Festas de São João em Braga

O São João de Braga continua a ser o momento alto do calendário anual dos bracarenses. As festas revelam a identidade genuína da cidade, quer através das iniciativas das associações culturais e recreativas do município, que atingem, por esta quadra, o seu maior horizonte de ativismo, quer pelas tradições e legado que conserva, quer pela elevação dos principais símbolos da cidade, como a bandeira e o hino.

Rui Ferreira
24 Jun 2012

Será sempre arriscado tentar datar a origem das festas, até porque este tipo de festividades se fundava no culto religioso. São João Batista é um dos santos mais importantes da Igreja, o único que é celebrado a partir do seu nascimento. Apenas Jesus Cristo e Nossa Senhora têm direito a essas prerrogativas.
O que podemos conjeturar é desde quando alcançaram dimensão municipal, e como é que se destacaram dos demais festejos que tinham este privilégio. Sabemos que existe uma igreja paroquial dedicada a São João, desde o século XII, e uma capela (da Ponte) desde 1616. Sabemos também, através das atas do Senado da Câmara, que, ao longo do século XVI, o São João já fazia parte das celebrações estatutárias da cidade, detendo até um estandarte oficial. Todavia, para além do São João, as festas do Corpus Christi, de Santa Isabel, de S. Tiago, de Nossa Senhora e do Anjo da Guarda também detinham um cariz municipal. Por este tempo, temos conhecimento da existência de algumas tradições. Uma delas é o Candeleiro, em que uma vela votiva era transportada pelas ruas da cidade. Associadas a esta antiga usança, estavam outras tradições como a dança das pélas (as padeiras da cidade, transportadas aos ombros, executavam uma coreografia); os espingardeiros, que deveriam disparar para o ar durante o percurso; e, ainda, uma dança de espadas, espécie de pauliteiros que deveriam secundar o Candeleiro.
A corrida do porco preto era outra das grandes tradições sanjoaninas. Um porco era soltado do Picoto e perseguido até às margens do rio Este, onde se encontrava, sobre a ponte, um grupo de moleiros que tentava impedir a passagem do animal. Se o porco resolvesse atravessar o rio era pertença dos moleiros, se conseguisse atravessar a ponte ficava a pertencer aos cavaleiros. Outra das tradições associadas ao São João era a serpe, símbolo do pecado que se insinua aos humanos, e restituída às festas no Encontro de Gigantones e Cabeçudos.
Pelo relato de um monge francês, que passou o dia de São João em Braga, no ano de 1699, sabemos ao pormenor como seria a procissão, antes da reforma litúrgica que ocorreu poucos anos depois. Não faltavam danças e lutas durante o percurso, assemelhando-se mais a um curso carnavalesco do que a um cortejo religioso.
A procissão vai ser reformulada com manifestações de teatro sacro. A “Relação do Festivo Aplauso”, documento que descreve a do ano de 1754, fala-nos já de uma exibição similar ao carro dos pastores, onde figuravam seis carros relativos a algumas passagens da vida de São João Batista. Nesta descrição é referido que Braga era «sempre a primeira (cidade) nos cultos do mesmo Santo», o que atesta que as festas teriam uma dimensão significativa.
A dança do Rei David e o Carro dos Pastores continuam a ser o momento de maior originalidade. São acompanhados pelo Carro das Ervas, uma memória das procissões medievais que exigiam este tipo de carros de cheiro, o qual vai abrindo o cortejo, “despejando”, pelas ruas, as ervas para perfumar as ruas. A dança do Rei David, reformulada no século XIX, deriva provavelmente da Mourisca, dança associada à procissão do Corpo de Deus.
Outra das tradições dos festejos são os quadros bíblicos representados no rio Este, que têm origem no século XIX. De um lado da ponte está a representação do batismo de Cristo, e do outro um gigantesco S. Cristóvão.
Na última década do século XIX, um conjunto de cidadãos decidiu engrandecer os festejos e implementou uma série de inovações no programa. Para além do reconhecimento que as festas alcançaram nas fronteiras do Minho, a popularidade do São João de Braga chegou a Lisboa e ao Porto, onde se colocavam os cartazes das festas. O comboio era a grande aposta para atrair forasteiros. As festas da cidade foram, pelo menos até aos anos 50, o grande evento turístico da cidade, atraindo milhares de pessoas de todo o país.
Recentemente, uma nova tradição veio dar mais brilho ao São João: o Encontro Internacional de Gigantones e Cabeçudos. É a prova de que temos hoje que continuar a criar tradições.
De facto, as festas de São João têm tudo para ser o maior cartaz turístico e cultural da cidade. E se fosse criado um site? E se regressassem os foguetes, balões, festa de encerramento e cortejo do Traje? E se, na noite de São João, houvesse minipalcos que criassem bailaricos espontâneos e animação? E se fosse valorizada a tradição de Braga nos cordofones, criando um festival nacional de cavaquinhos? E se recuperassem a Corrida do Porco Preto?




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