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Outro Ponto de Vista

“Quando as coisas são insuportáveis, negamo-nos a suportá-las”Se é uma verdade de La Palice que há vida para além do défice, não é menos verdade, e nós enquanto povo vivenciamo-lo, não há vida saudável com défices permanentes. Hoje, infelizmente e fatalmente, muitos terão percebido que neste estado atual, com uma dívida galopante, não encontramos família que se aguente, empresa que resista ou nação soberana que se afirme, na medida em que as suas capacidades básicas de decisão e autonomia, pura e simplesmente, se evaporaram.

Acácio de Brito
22 Jun 2012

Nas mãos dos mercados, eufemismo para credores que nos emprestaram e continuam a emprestar dinheiro, eles foram-nos impondo condições, algumas draconianas, mas com a legitimidade de quererem que lhes paguemos não só os juros do capital em dívida, mas também, no final do prazo contratualizado, o dinheiro emprestado.
E a questão coloca-se no presente porque, desde há muito, temos tido despesas superiores às receitas, problema resolvido quase sempre com artes e manhas de fazer corar o mais crédulo dos crédulos!
Com uma criatividade estonteante, psicadélica mesmo, a receita é elementar: aumentando a carga fiscal sobre todos, diminuindo as remunerações, privatizando tudo o que mexe, vão procurando os governantes que nos têm saído em sorte, ou azar, esconder o sol com a peneira com exercícios da chamada “engenharia financeira”.
O problema surge quando, como nos aconteceu, o défice gerou um aumento previsível e insustentável da dívida, deixando-nos, enquanto Nação, de ter a capacidade de honrar os compromissos.
Entendemos deste modo o esforço patriótico que esta maioria tem feito, tentando resolver o problema das finanças públicas, o que tem de ser conseguido de forma sustentada e estruturada.
Não percebemos de todo é a proposta de Soares. Mandar o BCE produzir notas e colocá-las nos considerados PIGS, só pode ser entendido como mais um sintoma de senilidade.
Não obstante a gravidade do enunciado, fez-me recordar o tempo de meninice e do jogo do “monopólio” com notas a fazer de conta!
Mas estamos no mundo real, num mundo que, por alguns fazerem muitas vezes de conta, se encontra num tempo muito difícil. Insustentável, para muitos!
Choca-nos, por isso, ouvir alguns dos que tiveram responsabilidade pelo descalabro hoje vivido por outros que não os verdadeiros responsáveis, permitirem-se, no conforto de Frankfurt, como por exemplo Constâncio, dizer que não sabiam do que se passava no BPN nem sequer quanto custaria ao erário público os desmandos que ele tinha a responsabilidade, por força do cargo então ocupado, de saber! Ficou com as prebendas, deixou-nos as contas a pagar.
Intriga-nos, também, a proposta de Cadilhe da criação de mais um imposto!
Ficamos, ainda, estupefactos com a obscenidade de algumas remunerações, imerecidas, só justificadas por compadrios e lógicas mais ou menos sicilianas!
Se, como País, temos hoje sérias limitações à nossa autonomia e soberania, resultantes dos desmandos, incompetência e ganância de alguns, resta-nos a responsabilidade de exigir responsabilidades.
Confiscando-lhes aquilo de que, indevidamente, se apropriaram, chamando-os pelo nome do que realmente são!
O défice, sendo um problema, pode contudo funcionar como leitmotiv na resolução estrutural de algumas idiossincrasias. Se conseguirmos exigir verdadeiras responsabilidades a quem deveria ter olhado e tratado de outro modo o que era de todos, então o que é insuportável passa a ser condição de uma vida melhor.
Ora, o poder de quem vai mandando nada mais é que a soma das nossas renúncias.

1 “Onde foi ele buscar tantos olhos que vos espiam / Se não fostes vós quem lhos emprestou? / Como tem ele tantas mãos para vos bater / Se não é a vós que as vai buscar? / De que maneira tem ele poder sobre vós / Senão através de vós?”, La Boétie, Discours de la servitude volontaire.




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