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Vinte anos de Coimbra

No passado dia 2, comprei o livro do falecido D. Manuel Gonçalves Cerejeira «Vinte anos de Coimbra». Li-o de imediato. Com textos elaborados nas primeiras décadas do século passado – nos anos 1909, 1922, 1924, 1925, 1926 e 1927 – não deixa de ser lido hoje com interesse. Com muito interesse.

Silva Araújo
21 Jun 2012

Além de nos revelar o que foi a militância católica e a atividade apostólica do seu Autor, quer como aluno quer como professor da Universidade de Coimbra, mostra, por exemplo, como um grupo de jovens, católicos assumidos, reagiu aos destemperos surgidos na sequência da implantação da República. Dispostos a morrerem pelos seus ideais. Por ocasião da chamada «questão de S. João de Almedina», ameaçados e indefesos, preveniram:
«Chegaram aos nossos ouvidos rumores de que se pensa em provocações aos católicos.
Serenamente – e por uma só vez – temos a dizer ao sr. Comissário da Polícia e a quem isto interessar que, se a autoridade não quiser ou não souber manter a ordem, em nossa legítima defesa, usaremos de todos os meios, absolutamente todos, que forem necessários.
Haja o que houver».
Destaco, no referido livro, a luta pela subsistência dessa grande escola que foi o Centro Académico da Democracia Cristã (C. A. D. C.), cuja sede foi assaltada em 1 de fevereiro de 1911. Reaberto em 8 de dezembro, foi posteriormente encerrado na sequência de uma ordem de Bernardino Machado.
De salientar as batalhas travadas nas páginas de «O Imparcial», um jornal fundado em 22 de fevereiro de 1922, que em Coimbra tiveram medo de imprimir (foi-o em Aveiro) e Manuel Gonçalves Cerejeira dirigiu durante dois anos e meio.
«Nesse tempo, escreve Gonçalves Cerejeira, o monóculo era ainda atributo do académico literato, que desdenhosamente olhava para esses meninos da Católica. E foi para eles uma surpresa, sublinhada a risinhos amarelos, o verificarem que os católicos também sabiam francês e – o que mais raro era ainda! – escreviam com gramática o português». (A Católica era o nome de desdenhosa hostilidade com que designavam o C. A. D. C.)
O Autor mostra quanto a Humanidade deve à Igreja. Como Ciên-
cia e Fé não são incompatíveis. Como homens de renome, que hostilizaram a Igreja, a ela regressaram, reconhecendo que «a ciência não nos pode resolver o problema essencial, – afinal o que somos, donde vimos e para onde vamos?» Como «Brunetière, o maior crítico literário francês, audazmente proclamou, à face do mundo sábio assombrado, que a ciência abriu bancarrota na resolução do grande problema – o problema fundamental -– do destino humano».
 De salientar também as referências feitas a figuras ilustres como Jacques Maritain, o príncipe Ghika, Carolina Michaëlis.
Neste capítulo, destaco as dez páginas dedicadas ao bracarense Doutor Sousa Gomes, lente de Química, que já foi tema de um dos meus artigos. O Autor recorda a atividade que exerceu no C. A. D. C. e o testemunho que dava, como Católico e como homem de Ciência. Diariamente participava, às sete da manhã, na Eucaristia, a que acolitava, na capelinha dos Grilos, que restituíra ao culto.
«Não tendo um minuto livre, o Doutor Sousa Gomes não roubava o tempo a Deus: começava sempre o seu dia assim – uma hora pelo menos com Deus, a preparar-se para as outras ocupações. Missa diária, comunhão frequente, devoções da Igreja…» «E tudo isto fazia naturalmente, sem afetação, na presença da sua família e dos estudantes que queriam assistir».
 Este livro fez-me pensar em tantos jovens e adultos de hoje que se não assumem como cristãos católicos nos ambientes que frequentam.
Fez-me pensar em quantos, crendo-se intelectuais, julgam que, para penetrarem no mundo cultural do nosso tempo, precisam de se declarar agnósticos.
Fez-me pensar na impassibilidade de quantos, julgando-se filhos da Igreja, não reagem perante situações em que esta é injustamente acusada ou até ridicularizada.
Fez-me pensar na falsa prudência de quantos, tendo o dever de esclarecer e de recordar aspetos da doutrina da Igreja esquecidos ou adulterados, se remetem a um silêncio que, sendo cómodo, não deixa de ser cúmplice.
A leitura de «Vinte anos de Coimbra» levou-me a pensar que não seremos verdadeiros cristãos se nos deixarmos acomodar e instalar. Se não remarmos contra a maré. Mas não sei se não será isto o que está a acontecer.
Como faz falta que, sem triunfalismo, mas também sem medo, quantos nos afirmamos cristãos dêmos testemunho disso mesmo, em todas as circunstâncias!




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