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O arquétipo do euro

Ultimamente, o Euro 2012 tem feito capa em todos os jornais como um desígnio nacional, alegrando e encantando todos os portugueses que vivem destes aforismos, postergando e entorpecendo o verdadeiro euro. Essa moeda que trocamos diariamente e que nunca esteve tão ameaçada como agora, parece ter sido esquecida por este interregno.

Orlando Vilas Boas da Silva
19 Jun 2012

Não são raras as vezes em que pensámos ter algo como nosso, assumido, adquirido e garantido, até sermos assolados por algum revés. Podemos pensar nele e indagar sobre o que nos levou àquele ponto sem retorno, podemos ter desejado fazer as coisas de modo diferente, mas pior que aquele que não sabe o que fazer é aquele que nada quer fazer.
A senda almejada, a certa altura, foi alvo da fortuita condição da crise imobiliária que levou à falência do banco americano Lehman Brothers, bem como à nacionalização do Freddie Mac e Fannie Mae (instituições privadas de empréstimos e hipotecas). A ilação que podemos retirar é tão válida agora como era naquela altura: temos que nos adaptar, lutar e crescer.
O modelo da União Europeia e do próprio euro a que nos habituámos está esgotado, e esta é a altura de estreitarmos laços a 27 e tratar este escopo forte e credível, que é o de uma comunidade unida. O projeto europeu passa indubitavelmente pela perda de soberania dos países, para reforçarmos a autoridade das instituições europeias, na medida em que o enfoque político se passe a fazer em Bruxelas. O caminho é tratar a União Europeia como um país, com centros de decisão e plebiscitos, para serem eleitos da forma mais democrática e escrutinada os caudilhos da nação.
Acontece que isto, na prática, implicaria, a título de exemplo, a Alemanha ver condicionada a sua linha de investimentos em determinado setor, caso os restantes estados-membros assim o entendessem. Não vou cair na pífia demagogia aplicada por alguns partidos conhecidos, de que a Alemanha é o olho do furacão e o resto anda tudo desvairado à sua volta, uma vez que têm tanto interesse na manutenção da moeda quanto eu. O busílis que se impõe da perspetiva dos alemães é o de saber a quem e em que medida vão entregar boa parte do seu poder.
Ora, no meu bom entender e olhando para o desgoverno que grassa nos países periféricos, tanto a nível financeiro e económico, como mesmo cultural, amedrontar-me-ia deixar que estes pudessem decidir o meu destino enquanto cidadão. Não é necessário obviar que daqui decorre, então, uma exigência de responsabilidade austera para um melhor auspício na integração, não obstante à autodeterminação dos povos e respeito pelos princípios basilares da democracia. A emissão de dívida europeia que a chanceler alemã Angela Merkel tanto tem combatido, tem-se traduzido numa conduta que transparece pouca solidariedade com o infortúnio dos países mais afligidos, e no entanto têm desbloqueado milhões para ajudar. A explicação reside no facto de estarem reticentes quanto ao comportamento impróprio destes governos, para os deixarem tomar decisões que afetem toda a União Europeia de forma negativa, sabendo que, apesar de tudo, a manutenção do euro é fulcral para os interesses económicos até da própria Alemanha.
A crassidão europeia é flexível e passível de ser incrementada, logo que todos comecem a cooperar e a dirimir as diferenças e os erros que existem entre si. O governo português tem sido exemplar em mostrar um caminho de responsabilidade ao qual ninguém fica indiferente. Portugal faz e tem feito o melhor que sabe fazer. Agora é a vossa vez, Europa.




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