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Não pode haver fronteiras em democracia

Fez no dia 26 de maio um ano que a RTP 1 emitiu uma entrevista ao líder do BE (Bloco de Esquerda), inserida numa série de entrevistas a dirigentes partidários cujo objetivo era mostrar os políticos do outro lado das câmaras. As imagens que hoje estão disponíveis na Web, mostram-nos um Francisco Louçã enérgico conduzindo uma lancha.

Jorge Leitão
19 Jun 2012

A bordo, Fátima de Campos Ferreira a conhecida «pivô» da rubrica “Prós e Contras” igualmente transmitida pelo mesmo canal, tentava, através de perguntas banais, quebrar a couraça da personalidade gélida do político, revelando, por vezes, alguma incomodidade em estabelecer um diálogo informal.
Lembro-me de ter visto o programa no dia em que foi emitido. Na Web a entrevista surge resumida, focalizando apenas alguns pormenores mais impressivos. Porém, há um detalhe que não escapou à realização: aquele em que Louçã se ergue na lancha e improvisa o diálogo do político com alguns pescadores que os observam no cais de amarração das suas embarcações. Julgo que já no regresso, que mal saíram da barra daquele porto algarvio. Em mangas de camisa desabotoada, o praticante ocasional de vela, classe “Laser“, disfarçou com um sorriso o «Sim!» contrafeito, à pergunta que um dos interlocutores se atreveu a fazer, depois de um quase monólogo: «Olhe, essa senhora que vai consigo no barco não é Fátima de Campos Ferreira da televisão?»  
O resumo da entrevista, para quem a viu na íntegra, dura praticamente o tempo em que Louçã, tentou em vão, encenar perante as câmaras, uma espécie de arruada (aguada neste caso) com os pescadores. A protagonista, a figura mediática, não fora ele, mas a entrevistadora. Se em vez do dirigente do BE, a personagem fosse o Presidente da República, talvez o pescador se contivesse e a demanda não fosse lançada. Mas, quiçá, por respeito ou timidez do curioso.
Há dias tive oportunidade de assistir no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva a uma mesa redonda com a presença de representantes dos cinco partidos com assento no Parlamento Europeu, no decurso da celebração do dia da Europa. Após breve introdução a cargo do moderador, o Dr. Pedro Bacelar de Vasconcelos, e duma curta e demarcante autoapresentação dos convidados, seguiu-se a fase de debate. Todavia, a maioria dos inscritos optou antes por tecer demoradas e fastidiosas opiniões sob os mais variados temas, fazendo com que a sessão se arrastasse sem que os verdadeiros protagonistas tivessem o necessário tempo para poderem contrapor e expor os seus pontos de vista segundo as respetivas filiações. Pelo menos foi por tal razão que lá me desloquei. Procurava esclarecimentos dos eleitos sobre várias matérias atinentes ao tema subjacente: “Que Europa Queremos”. Mas não. A sessão transformou-se numa demonstração de vaidades pessoais que culminou com alarde de desprezo pela própria mesa. A breve trecho alguém fez caso de realçar que na recente apresentação de Mia Couto do seu último livro “A Confissão da Leoa”, a sala estava a abarrotar, contrariamente ao que então se verificava. 
Este sinal de prosopagnosia (inabilidade em reconhecer rostos) e que afeta, segundo estudos, uma em cada cinquenta pessoas, parece projetar-se nos cidadãos no que concerne ao reconhecimento dos políticos por estes democraticamente eleitos. E esta é a verdadeira perceção de crise. Uma crise de degenerescência idiossincrática que deveria merecer uma análise circunspecta por parte dos sociólogos, já que produz o efeito de entropia na própria política.
Esta fronteira que se criou entre os cidadãos e os políticos, colocando uns de um lado e outros do outro, como antagonistas, foi cavada por ambos. E é isto que tem de ser esbatido sob pena de os valores da democracia se diluírem de novo. Como? Basta que eleitores e eleitos se revejam em espelho. Porém, é necessário que o caráter de cada pessoa se desmascare nos comportamentos e atitudes do dia a dia, o que parece irredutível face à perene vertigem do dinheiro e o fascínio pelágico pelo poder.




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