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A insustentável coceira socialista

Não há dia algum que não ouçamos queixas socialistas de que a austeridade imposta ao país se não justifica e que vai além da troika. Ficamos com a sensação de que o Partido Socialista não soube o que assinou e também de que o partido que nos governou antes nos deixou pior do que nos admitiu. Com um pouco de benignidade, talvez se possa dizer que o descontrolo foi tanto que nem mesmo os principais responsáveis tinham contas certas.

Luís Martins
19 Jun 2012

A verdade é que os socialistas andam inconsoláveis. Falam da situação do país como se não tivessem nada a ver com isso. Como se pudéssemos sair da crise com os mesmos que nos levaram à calamidade em que caímos. Certo é que há um ano que tentamos sair dela – estamos a meio do caminho, dizem-nos – e não deixamos de ficar surpreendidos com a displicência com que fomos governados antes, justamente por aqueles que agora julgam que nos esquecemos das ilusões que outrora nos venderam. Como quem vende a banha da cobra ou outro produto, ao género daqueles que nas feiras, sobre o palco ambulante e com apoio de altifalante, apregoam que nos dão isto e mais aquilo a troco de pouco dinheiro, quando, na verdade, compramos inutilidade e lixo. No caso do país, foi ainda pior. Comprámos ilusões que nos comprometeram seriamente por muito tempo.
Os socialistas nunca apreciaram a responsabilidade da governação social-democrata. Sempre disseram que a austeridade é coisa neo-liberal. Alguns, por convicção ou puro oportunismo, se pudessem, até continuariam as políticas suicidas. Foi por isso que estivemos perto da falência e estaríamos entregues em definitivo aos credores, não fosse a decisão dos eleitores, ainda antes mesmo de terem toda a informação. Quem a tinha senão o governo cessante? Felizmente, os portugueses vão ficando elucidados dos verdadeiros culpados da desgraça que nos atingiu e das angústias escusadas de tantas famílias portuguesas.
As últimas legislativas trouxeram tento e responsabilidade à governação. Os socialistas não se conformaram. Tem sido uma coceira que faz impressão. Ainda o partido ganhador se preparava para iniciar funções, já alguns argumentavam com a mesma irresponsabilidade de antes. É claro que queremos viver melhor – quem o não quer? –, mas não da forma como nos propuseram. Já nos desforrámos e ficámos gordos. Alguns obesos. Não podemos ignorar mais as consequências. Agora é tempo de fazer dieta. A que for precisa, que vai molestar muito, com toda a certeza. Será uma dieta mais demorada do que a dos 31 dias proposta pela nutricionista para quem é possível emagrecer num mês uns quantos quilos “sem passar fome, sem desistir a meio e com resultados visíveis”. A grave situação exigirá um tratamento mais rigoroso e doloroso e muita responsabilidade.
É verdade que estamos pior do que antes. Vivemos os dias com as algibeiras mais vazias e com o peito mais apertado. A dieta está a ser cara e a deixar-nos desconfortáveis. Mas isso é consequência dos maus comportamentos anteriores. É a herança socialista que está a ser distribuída a rodos. Vamo-nos fartar dela, se é que ainda não estamos fartos. O pior é que vamos senti-la na pele e no corpo durante muitos anos. Mas a prescrição é para doente em estado crítico. Não vale a pena continuar a ceder à tentação de termos boa vida se não temos possibilidade de a suportar.
O caminho certo, muitas vezes, quando nos deixamos apanhar pela doença, é passar um mau bocado. Melhor do que prosseguir no desfrute e depois sofrer a dobrar. É claro que podíamos ter evitado chegar onde chegámos – não tivemos juízo quando escolhemos – mas depois do mal estar feito, a dieta é incontornável. Continuar a consumir compulsivamente, conhecendo as consequências, é irresponsabilidade. Mas o Partido Socialista insiste e continua a querer vender-nos a ilusão de que consumir estimula e faz crescer, propondo-nos que acreditemos que o crescimento vem da ingestão de alimentação abundante e não da dieta equilibrada, quando sabemos que não é assim. Aliás, com Sócrates e Companhia por dietistas, consumimos à grande e a fiado e nem por isso crescemos, antes pelo contrário.
Termino que se faz curto o espaço. Na semana passada, assisti a uma conversa entre duas pessoas no 45 dos TUB – que cusca que eu sou! –, que me impeliu para o assunto. Uma dizia em tom categórico para outra: “a Câmara Municipal anda a coçar o alcatrão por toda a cidade”. A forma verbal foi mesmo essa: coçar. Felizmente, o acordo ortográfico ainda não chegou às cedilhas, pois se tivesse chegado, provavelmente ficava com dúvidas sobre a justificação das obras.




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