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O espaço inteligente para a palavra

Não é fácil, em momentos de injustiças sociais, de defesa da honra pessoal, ou em momentos de irritação suprema, conter as palavras. Não é fácil, mas as pessoas bem educadas fazem-no. As palavras não sentem os efeitos da gravidade porque nunca mais caem ao chão, nunca mais esquecem, sempre ficam em suspenso, a pairar. Por mais arrependimento que tenha aquele que as pronunciou, a ferida fica sempre em aberto. Não há cicatrização para as palavras, sejam elas de que natureza forem. Como diz o povo, palavra fora da boca é pedra fora da mão.

Paulo Fafe
18 Jun 2012

Vem isto a propósito dos insultos que, depois, deram lugar a uma agressão entre um deputado conservador e umas senhoras deputadas doutras ideologias. Ora os senhores deputados têm muita responsabilidade pelo que dizem e igual responsabilidade pelo que fazem. Quanto maior for a visibilidade do cargo, maior é, ou deve ser, a contenção nas palavras e nas atitudes. Para mim, qualquer violência, seja ela de que natureza for, é barbárie, é sinal de primitivismo interior; é  fervura a escaldar de sentimentos que não encontram no perdão, o perdão, nem admissão do contraditório.
As palavras mal ditas fazem feridas insanáveis. É assim em todas as circunstâncias, quer sejam ditas no desporto, na política ou na religião. As guerras religiosas são as mais cruéis porque da boca donde deveria sair a palavra de concórdia e de amor, sai o fel da vingança.  Os argumentos que são contrários aos nossos não podem ser pretexto para atirar palavras como se fossem setas envenenadas. A vindicta de alguns representa-se por estas atitudes de uma crueza de sentimentos e de um sentimento de incompreensão que raia o cavernismo. Quando será que estes senhores deixam as cavernas e olham para fora de si à procura do seu semelhante, mesmo que seja contra a  sua ideia ou opção de vida?
Não é necessário bater com o punho na mesa ou elevar a voz aos gritos para se ter razão. Quem disse que o silêncio é de ouro, sabia bem o que dizia. Não é necessário bater no adversário com palavras ou atitudes para demarcar fronteiras doutrinárias ou ideológicas. O que repudiamos hoje de radicalismos e absolutismos nos outros, quando cremos e queremos que a sua razão seja a nossa razão, quando não admitimos a razão dos outros, quando pensamos que, no nosso terreno, só os nossos passos marcham certos, então em que nos distinguimos dos  ditadores? As palavras são significantes do muito do que vai na sombra do nosso id.  Aqui se escondem os lodos e os bolores. Estou como dizia um poeta anónimo: “O que o Homem mais gosta,/o que o Homem mais adora,/ não é o que pinta por dentro,/ é o que aparenta por fora”. E por fora todos os sepulcros são caiados de branco. E quando temos toda a razão, ou julgamos estar a defender os mais fracos, os perseguidos, os humilhados e ofendidos? Toda a razão perde a força da razão quando perde o sentido da contenção verbal; ganha o sentido da arruaça e perde o sentido da serenidade.
As causas e a sua defesa merecem justeza no conteúdo e elegância na forma, sob perigo de se tornarem num populismo. O processo de construção e reconstrução da justiça social assenta e ganha essencialmente na “luta” das ideias e nunca na violência verbal; subjaz, do confronto das palavras, ou a harmonia ou a guerra. A harmonia deixa mais espaço inteligente para lutar. A violência verbal provoca violência verbal na ordem inversa da razão. Não podemos perder de vista que a história da palavra é uma história de guerras intestinas, idealismos, realismos, empirismos, materialismos, pragmatismos, fanatismos que se criam e recriam uns aos outros, deslocando problemáticas, acentuando questões e estabelecendo ruturas.




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