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Será que a Europa (ainda) precisa do euro?

Nos meios académicos e políticos europeus, a grande polémica anda à volta da ideia saída em livro recente e que afirma: «a Europa não precisa do euro». O autor desta tese é Thilo Sarrazin, antigo membro do conselho de administração do Bundesbank.

José Carvalho
17 Jun 2012

Thilo elegeu como tese da sua nova obra o argumento de que a Alemanha só se esforça para salvar o euro porque continua a sofrer um enorme complexo de culpa devido ao seu passado nazi. Nacionalista, chauvinista, reaccionário e desprezivelmente calculista são apenas alguns dos epítetos lançados a Sarrazin, mas há quem o admire por ter a coragem de colocar as questões difíceis com respostas ainda mais complexas.
Sarrazin argumenta que o euro trouxe à Alemanha demasiados riscos financeiros, sem benefícios suficientes, acrescentando que o comércio com os países fora da zona euro está a crescer mais depressa do que aquele que é feito com os membros da zona em questão. Sarrazin clama também, no seu livro, que o processo de integração da Europa não passa de uma «pura ideologia».
Por outro lado, Sarrazin não deixou passar a oportunidade de citar a (já) famosa frase de Angela Merkel «se o euro falha, a Europa falha», afirmando que a Chanceler tem sido extremamente bem-sucedida com esta fórmula de discurso e que este livro pode funcionar como uma resposta à sra. Merkel, na medida em que, a seu ver, a Alemanha possui uma economia com base nas exportações e que, por isso mesmo, não precisa do euro.
A Alemanha, diz o mesmo autor, está a ser usada como uma fiadora das dívidas dos outros países. De acordo com esta visão, o euro é o velho marco alemão, rebaptizado e redistribuído como um acto semiconsciente e mal orientado de caridade alemã. Surpreendente é também o facto de, nos anos de 1990, Sarrazin se ter convertido ao valor do euro e agora o encarar como uma espécie de «aposta falhada», pois a classe política alemã sempre pensou que a união política se seguiria à união monetária, como se fosse uma lei natural, pois sem ela a moeda comum não seria estável. E daí a aposta falhada.
Obviamente que as críticas à mais recente incursão literária de Sarrazin não se fizeram esperar.
Claro que também existem apoiantes, e não foi surpresa para ninguém que a extrema-direita alemã, via NPD (o Partido Democrata Nacional) tenha divulgado uma nota na qual enaltece o trabalho de Sarrazin. Sarrazin, por sua vez, tentou defender-se de uma aproximação à extrema-direita alemã, dedicando algumas linhas do seu livro a distanciar-
-se das figuras nacionalistas que o apoiaram no passado.
Polémicas partidárias à parte, comentadores e economistas conferem um outro sentido ao livro de Sarrazin. A título de exemplo, a Deutschlandfunk radio considera as questões colocadas no livro como evidentes, afirmando que o discurso de Sarrazin não é, de todo, banal. «Enquanto especialista financeiro e antigo membro do banco central, a sua competência económica é inquestionável». Também o jornal de esquerda Die Tageszeitung escreve que «neste livro, o experiente político e financeiro traz consigo os conhecimentos de uma vida quando coloca questões que não são de fácil resposta».
Para Tilman Mayer, cientista política em Bona e em declarações ao The Wall Street Journal, «a visão de que o euro foi mal construído é partilhada por muitos alemães, mas é difícil imaginar um movimento anti-euro numa altura em que [na Alemanha] a economia está bem e o desemprego está em níveis baixos».
Assim, e mesmo os alemães que concordam com Sarrazin de que o euro não era necessário para a integração europeia, admitem que tal não significa que a Alemanha deve agora virar as costas à moeda única.
A verdade, porém, é que o livro está a causar uma enorme polémica, instalando dúvidas na cabeça de muitos alemães e fazendo eco das certezas de outros tantos. Dúvidas e certezas que estão também, seguramente, a ser partilhadas por muitos cidadãos de outras nacionalidades.
Em suma, será que a Europa precisa do euro, ou a União Europeia é que precisa dele, e de que maneira? Esta é a grande questão!
E os próximos dias e meses, dependendo do que se passar na Grécia, Espanha e Portugal, poderão ajudar na resposta.
Vale a pena pensar nisto!




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