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O caos mundial

O Campeonato Europeu de Futebol e a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, são duas iniciativas internacionais que marcam o mês de Junho. Sobre o primeiro evento, todos sabem tudo, quantas vezes por dia boceja o Hélder Postiga, quem são as tias do Fábio Coentrão, quando é que Cristiano Ronaldo arrota. Sobre a Rio+20, poucos saberão seja o que for.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
17 Jun 2012

Se fosse um jogador de futebol, toda a gente conheceria Pierre Rabhi. Não sendo, raros terão ouvido falar deste agricultor e filósofo francês de origem argelina. E, no entanto, valeria a pena conhecê-lo. O diário francês La Croix editou uma revista, intitulada “O que é um profeta?”, que apresenta alguns dos que, hoje, podem ser considerados como tal. Pierre Rabhi encontra-se na lista, que inclui Stéphane Hessel, autor de Indignai-vos; Aung San Suu Kyi, opositora do regime birmanês e Nobel da Paz; Muhammad Yunus, criador do microcrédito, também Nobel da Paz; Tawakkol Karman, iemenita, militante pelos direitos das mulheres, outra Nobel da Paz; Radhia Nasraoui, uma tunisina defensora dos direitos humanos; e Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio.

Numa entrevista recente, concedida a Basta!, um site informativo, Pierre Rabhi fala sobre o “caos mundial”, sem meias-tintas, como convém. “Os que têm dinheiro cometem um rapto legal dos bens de todos. Um roubo ilícito, mas normalizado pelas regras do jogo. O dinheiro torna a humanidade completamente louca e demente. A primeira vítima deste novo paradigma, desta nova ideologia, é a Europa”, diz ele. O agricultor e filósofo constata que nos encontramos “num sistema ‘bombeiro-pirómano, que, simultaneamente, produz os desgastes e pretende corrigi-los. Colocam-se remendos em vez de mudar de sistema”.

Como tantos outros, Pierre Rabhi insiste: “A Terra não pode mais e tem-no feito saber através de mudanças climáticas erráticas, cada vez mais imprevisíveis no tempo e em intensidade. O paradigma dos países industrializados e mesmo dos países emergentes é: ‘depois de nós, o dilúvio’. Eles estão-se nas tintas para o desenvolvimento sustentável. Ninguém resiste ao ‘money-teísmo’, a religião do dinheiro”.

Como é possível a mudança? Pierre Rabhi responde que se pode comprar produtos biológicos, reciclar água, usar energia solar e, no entanto, explorar o próximo. “A mudança radical da sociedade passa por uma visão diferente da vida. O humano e a natureza devem estar no coração das nossas preocupações”.

“Acredito muito no poder da sobriedade”, confessa Pierre Rabhi, acrescentando: “Não acredito no poder das contas bancárias. O verdadeiro poder está na capacidade de uma comunidade humana se contentar com pouco e, ao mesmo tempo, ser geradora de alegria. A nossa sociedade transborda de tudo, mas consumimos cada vez mais ansiolíticos”, para reparar os desgastes que produz esta ‘sociedade da matéria’! Somos uma espécie de planeta psiquiátrico”. Depois, interroga: “Quanto sofrimento produz esta sociedade?”

A entrevista é longa e proveitosa. Com a preocupação de saber como jogará Portugal mais logo a dominar as mentes nacionais, pouco eco encontrará, agora que o novo ano escolar, hélas, se vai começar preparar, uma inquietação de Pierre Rabhi: “E se educássemos as crianças para que estejam contentes e não para a avidez permanente?” A educação das crianças deveria sensibilizá-las para o fenómeno da vida, para o facto de existirmos. “Ora, nós apenas temos estruturas educativas que ocultam completamente os fundamentos da vida para, o mais rapidamente possível, fabricar um pequeno consumidor e um pequeno produtor para o futuro”. Esperemos que, mais logo, Portugal ganhe. Depois pensaremos nisto. Ou não.




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