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Tranquilidade acima de tudo

A teimosia dos treinadores de futebol é um fenómeno mítico. Não é só Paulo Bento, mas o caso do homem dos penteados esquisitos é um paradigma. Quando a teimosia dá bons resultados chamam-lhe inteligência; quando resulta em desastre apelidam-na de casmurrice. Ou coisa pior. Neste jogo face à Dinamarca tivemos as duas variantes: no jogo com a Alemanha, Postiga fez um jogo fraquinho mas ontem a coisa já correu bem melhor.

Manuel Cardoso
14 Jun 2012

Fez bem Paulo Bento em ser teimoso. Pelo contrário, a insistência em João Pereira só veio confirmar a inaptidão do jogador para estas andanças. Frente à Alemanha, no lance do golo, parece ter ficado a implorar por um escadote para chegar aos sovacos de Gomez; ontem, o treinador deu-lhe nova hipótese e foi ele o responsável mor pelo primeiro golo da Dinamarca, ficando a ver Krohn-Dehli fazer a assistência fatal.
Mas aquilo em que Paulo Bento teima mais é sem dúvida naquele estilo tranquilo, aquele esperar para ver, até ao limite da paciência. É a famosa tranquilidade que já o celebrizou; ou, para sermos mais fiéis à pronúncia do técnico, a thranquilidade! No jogo com a Alemanha jogamos completamente thranquilos até ao golo dos germânicos. Podíamos, é certo, ter “cantado de galo” se a cabeçada do Pepe tivesse resultado. Desta vez a cabeçada do Pepe resultou e por isso parecia ter valido a pena ser teimoso e tranquilo.
Mas a calma irritante do treinador (e de toda a seleção) atingiu o auge na segunda parte; a ganhar por dois a um, a ordem parecia ser esta: aguentar! E como os dinamarqueses pareciam apostar na mesma arma, quem teve de aguentar foi o espetador, perante um espetáculo cada vez mais pastoso e desinteressante. Mesmo assim, os amiguinhos nórdicos ainda convidaram Cristiano a aparecer sozinho em frente do seu guarda-redes, mas o craque decidiu, mais uma vez, fazer cerimónias perante tão honroso convite. Logo a seguir, foram os dinamarqueses a beneficiar de um convite “de tapete vermelho estendido” e não enjeitaram. Lá teve o Patrício de ir buscá-la ao fundo das redes. Tal como no desafio frente à Alemanha, lá teríamos de perder a thranquilidade a alguns minutos do fim… então sim, por breves minutos, a equipa perdeu a tranquilidade e marcou o terceiro golo. Aqui há um aspeto em que temos de render homenagem ao selecionador: ter apostado nos últimos minutos num jogador decisivo: o intranquilo Varela.
Agora, como é nossa sina, vamos fazendo contas. Antes deste jogo, algumas pessoas afirmaram que em 2004 também havíamos perdido o primeiro jogo e fomos à final. No entanto, acho que há diferenças substanciais:
Em 2004 a convocatória incluía dezasseis jogadores de clubes portugueses e atualmente são apenas dez! O onze inicial da primeira jornada tínhamos seis jogadores a jogar em Portugal, cinco dos quais jogavam juntos no FC do Porto. Agora, frente à Alemanha, tivemos apenas três a jogar no nosso país e o clube mais representado é o Real Madrid com três jogadores.
Em 2004 tínhamos um treinador que, embora falasse demasiado, sabia arriscar a tempo e deixava a equipa jogar.
Talvez em consequência disto tudo, em 2004 tínhamos um país unido em torno da seleção; tínhamos as varandas enfeitadas com a bandeira nacional enquanto agora as temos decoradas, quando muito, com os “letreiros” das empresas imobiliárias




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