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Onde estás?

1 Quem participou na Eucaristia do último domingo sentiu-se interpelado pela pergunta feita por Deus a Adão: Onde estás? (Génesis, 3, 9-10).Escrevo assim porque a Palavra de Deus proclamada é para ser acolhida por cada um dos participantes como uma carta que Deus nos manda. Compete-nos, com o auxílio da homilia, descobrir o recado que Deus envia a cada um de nós e por ele acertarmos a vida.
 

Silva Araújo
14 Jun 2012

2. Para mim aquela pergunta não deixou de ser matéria de reflexão. Porque é necessário que, a cada momento, saiba estar onde devo estar, quando devo estar, com quem devo estar, a fazer o que devo fazer e como o devo fazer.
Repito, intencionalmente, o vocábulo “devo”. Uma coisa é a obrigação – o dever – e outra, a devoção. Aquela há de ocupar o primeiro lugar. E quando não há tempo para as duas, é esta que deve ficar para trás.
Colocar a devoção acima da obrigação; gastar com a devoção o tempo necessário à obrigação é manifestar a existência de uma incorreta escala de valores. É não saber dar a cada coisa a importância que deve ter. É não saber distinguir o essencial do secundário ou perverter a aconselhável ordem das coisas, dando a primazia ao que a não deve ter. É não saber – ou não querer – gerir bem o tempo.
Todos nós, padres e leigos, temos obrigações. Deveres a cumprir. E se queremos ser
fiéis aos compromissos que assumimos temos o dever de os honrar.
 
3. Não quero generalizar e escrevo a olhar muito para mim. Estou persuadido de que, nuns casos mais, noutros menos, não deixamos de ser influenciados pelo individualismo da sociedade em que vivemos. Uma sociedade onde cada um se preocupa mais consigo do que com os outros. Onde se atua muito levado pelos interesses próprios e pelas próprias conveniências. Onde o bem comum, às vezes, não vai além de uma bonita expressão e o vocábulo “comunhão” chega a traduzir-se, na prática, por “cada um que se arranje”.
 
4. Se a minha preocupação é a de fazer o que mais me interessa, o que mais me agrada, o que mais me convém, é muito possível que me entregue, de alma e coração, à devoção, e ponha de lado a obrigação.
Mas se passo o tempo devido à preparação da homilia a ver um filme que até tem uma belíssima mensagem… se gasto em comoventes palestras a um grupo de muito devotas senhoras o tempo devido ao serviço do confessionário… se ando de um lado para outro a pavonear-
-me e não tenho tempo para me recolher no gabinete de trabalho a pensar nos assuntos do meu ofício…. se um pai dedica a um grupo de amigos com quem se sente muito bem o tempo que deve dedicar à família…  se uma dona de casa vai com as amigas preparar um chá dançante no tempo em que devia preparar o jantar…  se quem tem o dever de analisar dossiês e de assinar despachos passa o tempo com os companheiros da sueca…
 
5. É fácil arranjar desculpas para fugirmos à obrigação e nos entregarmos à devoção. É fácil arranjar argumentos que procurem «tranquilizar» a consciência quando deixamos de fazer o que devemos para fazermos o que gostamos de fazer, o que nos agrada fazer, o que nos convém fazer. Mas ter razões nem sempre significa ter razão. E um dos males da sociedade em que vivemos tem a sua origem no facto de nem sempre estarmos onde devemos estar, quando devemos estar, com quem devemos estar, a fazermos o que devemos fazer e como o devemos fazer. É muito simples, mas nem sempre é fácil. E porque é exigente…  «Ai que prazer não cumprir um dever!», escreveu um dia Fernando Pessoa.
 
6. No caso concreto do Génesis, que comecei por citar, Deus foi à procura do homem, que lhe tinha fugido. É outro dos dramas do homem contemporâneo: a fuga de Deus. O agir como se Deus não existisse. E tudo seria muito diferente, para melhor, se cada um de nós, consciente da presença amorosa de Deus, procurasse fazer a Sua vontade!
A fuga de Deus leva à perda do verdadeiro sentido da vida. À desvalorização da vida. A deixar de ver no outro um irmão e a convertê-lo em número ou em peça de engrenagem. À prática egoísta do salve-se quem puder e ao domínio do mais forte sobre o mais fraco. Ao longo da História, produziu a exploração do homem pelo homem, a coisificação da pessoa humana, os campos de concentração, os trabalhos forçados, os massacres, as valas comuns.




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