Fotografia:
Docete omnes gentes

Para uma pessoa que, como eu, se defina, não diremos escritor, mas como um amante da escrita, da literatura e, acima de tudo, da Língua Portuguesa, convirá, ousaremos dizer, dedicar umas quantas palavras ao dilúvio de considerações que tem inundado este tão afamado acordo ortográfico.

Vitor Pereira
14 Jun 2012

Quem porventura pense que o que aqui se pretende é fazer uma listagem dos prós e contras do referido acordo, engana-se. Tão pouco nos importará tecer considerações relativas ao porquê dos porquês ou aos motivos desconexos que anuíram uma nova forma ao corpo das palavras, não esquecendo porém – e isto sim convém ressaltar – que podem as altas instâncias alterar a forma do corpo, mas cabe às pessoas preservar a sua Alma!
O que incessantemente me perturba – areias movediças de um legado que se deteriora com as marés do tempo – é o facto, talvez controverso, mas dificilmente refutável, de que pouco importam os motivos que levaram a este novo acordo, pouco importa saber se o antigo acordo é mais louvável e honroso perante os egrégios livros da História da Pátria esquecida, ou, por outro lado, se este novo será um livro em branco, pronto a receber as páginas virtuosas do futuro.
Tudo isto se dilui na simples constatação de que qualquer professor de Língua Portuguesa poderá tirar – e se estas palavras se mostrarem erróneas ou falaciosas, que não hesitem em contrapor as minhas indagações – qualquer professor, dizia, poderá constatar que, cada vez mais, os alunos, os jovens, aqueles que terão na mão a caneta e a tinta permanente para escrever as linhas indecifráveis do porvir – perdoem-nos as constantes divagações – estes jovens, escrevem cada vez pior!
Não venham os críticos olhar estas palavras como uma crítica, ou pior, como um atestado de analfabetismo! Serão estas palavras o espelho de uma preocupação de quem lê nas palavras de Pessoa, vislumbres de um Nevoeiro Patriótico, uma herança, um património que se vai perdendo – pertencendo a Língua a esse espólio pardacento.
No fim das contas – e por mais que o saudosismo me faça cair as preferências sobre o acordo que sempre usei – de pouco ou nada importa se a forma gráfica de uma palavra se alterou, quando, uma boa parte dos jovens – que não se entenda nestas linhas qualquer forma de definição absoluta e abrangente a todos – não possui as ferramentas suficientes para elaborar uma frase ou desenvolver uma ideia de forma correta e conexa perante as linhas virgens do papel!
Um outro facto que me parece injustificável são as considerações que se encontram nas redes sociais, relativas a este já desgastado novo acordo ortográfico. Qual não foi o espanto deste que vos escreve, quando, navegando pelas marés disformes da teia informática, encontrei um daqueles grupos denominados “Anti-acordo ortográfico” que se encontra numa dessas bem-aventuradas redes sociais, um grupo com milhares de apoiantes que manifestam o seu desagrado, por vezes de forma quase odiosa para com o supracitado acordo – e não ousaremos nunca contestar ou criticar quem usa o protesto como forma de expressão. Porém, e no porém encontra-se a raiz de cada problema, ao dedicar um olhar atento aos comentários que alguns dos apoiantes deste grupo deixavam na respectiva página, deparei-me com o curioso e desconcertante facto de que estes não escreviam nem em concordância com o antigo acordo ortográfico, nem conforme o novo. Escreviam e escrevem, simplesmente, de forma errada, com erros ortográficos e, pior, erros de construção textual!
Reforcemos a ideia de que não pretende este texto ser uma crítica ou um atestado de óbito à Língua portuguesa. Pretende simplesmente chamar a atenção para as novas “correntes literárias” nascidas das linguagens simplificadas dos telemóveis e das redes sociais que, mais que o conteúdo da mensagem, pretendem ser rápidas e vazias, servindo para pouco mais que estabelecer ligações humanas sem sentido ou consistência, poupando, mais e mais, a mente ao desconforto do raciocínio.
Fica então questão, talvez perpétua e irresoluta: será de facto a ortografia que precisa de revisão, ou seremos nós a precisar de rever a forma como a utilizamos?
Não esqueçamos nunca que terá o Ser Humano criado a linguagem escrita para gravar e perpetuar as linhas infindáveis do seu pensamento na castidade incólume dos desígnios do papel, tendo em vista, simplesmente, aquilo que nos difere dos outros animais – a expressão!
Não permitamos, então, que a Língua Portuguesa se deixe morrer pelos fantasmas do presente, porque seja ela “óptima” ou “ótima”, o importante é que não seja má.

“É hora!
Valete, Frates”




Notícias relacionadas


Scroll Up