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Amante sem amado

Ser Florbela é mais do que ser, simplesmente, uma mulher. É ter fome e sede de algo, dum infinito divino e etéreo onde saciasse a sua ânsia de amor, vulcão em atividade com tanto de panteísta como de idealista. Pelos ventos espalhou gritos de alma, dorida, sofredora com muita, muita incompreensão.

Maria Susana Mexia
14 Jun 2012

É próprio dos grandes não se adaptarem ao mundo confinado dos restantes mortais, dos que vivem grudados ao tempo finito da sua fraca existência e não conseguem aceder ao âmago duma alma em poesia deificada.
O excesso de afeto negado e perdido, sem retorno possível porque, demasiado empolgante, afasta, retrai e conduz a falsas e deturpadas interpretações, con-soante os pontos de vista morais, afetivos ou culturais.
A pagã que passou pela vida em busca do sagrado – Queria encontrar Deus! Tanto O procuro! A anarquista que buscou incansavelmente o sentido da vida, a ordem do universo e do horizonte de belo no coração dos homens, não foi compreendida nem aceite pelo cinzento mundo de então.
Uma charneca em flor que a vida deixou secar por escassez de “águas vivas”, para saciar a sua sede de infinito. O mundo tinha–se esvaziado da essência do espiritual neste fim do século XIX e princípio do XX. Agonizando com o materialismo marxista, que reduziu Deus a um ópio barato, ou enlutado pela Sua morte em consequência dum decreto filosófico promulgado por Nietsche, num dos seus momentos de loucura e raiva, a Europa sofria fortes abalos telúricos vindos de Viena com histéricas vibrações freudianas, eivadas de traumas em tons sexuais, que punham toda a elite intelectual na descoberta dum mundo subterrâneo, promíscuo e desconhecido.
Rótulos e chavões mais ou menos estigmatizantes definiam alguns comportamentos afetivos, nada passou a ser simples e, sonhar, seria um pesadelo propício a interpretações tão descabidas e patológicas que se tornavam em loucura obsessiva. O mundo passou a ver tudo em função da descoberta sensacional e desabrigada da teoria da sexualidade. Hoje ainda não nos vimos livres dessa macabra influência que agride e compromete a singeleza e a beleza da normalidade nos afetos.
O mundo esvaziou-se do sentido do bem. A 1.ª guerra ajudou a completar o cenário da hecatombe que se abateu sobre todos. Deixou de haver espaço e tempo para se poder ser feliz com o simples.
Florbela sentiu-se perdida e sem norte na vida – Neste mundo tudo é vão. Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada! Maria das Quimeras fez dos seus dias uma procura inútil da felicidade na terra. Um após outro, todos os seus sonhos se desfizeram como bolas de sabão.
Lançou flores ao vento, em vão bateu a portas fechadas e recorreu a cisternas secas e fendidas, que não lhe saciavam a sede de “águas vivas” de infinito, perfeito e divino que lhe dilacerava o coração. Cansada de O esperar, sofre em vão o desespero do abandono celestial. A sua vida foi uma serenata de amor a tudo e a todos num panteísmo efervescente, tão ao jeito da época.
Sabe que Deus a fez Princesa entre plebeus, que lhe deu asas para ver os astros, mas não lhe deu braços para os alcançar.
Misto do existencialismo absurdo do pós-guerra, não se conformou com o niilismo da moda e aos Céus não cessou de pedir a sua gota de água – Queria encontrar Deus! Tanto O procuro!
A Flor que era Bela, acabou trucidada pelo “ar do tempo”, gritou num longo caminho para Damasco, mas a luz não a contemplou e deu lugar à noite fria e solitária dum calvário povoado de desilusões.
Bela, a Flor que a vida enjeitou, que pelo mundo dos homens foi crucificada, será eternamente amada, recordada e perdoada porque muito amou.




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