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Primeiro, os alicerces

Normalmente, não pensamos nisso. Ficamos ansiosos e queremos ver soluções rápidas, como se fosse possível servi-las como se serve um humbúrguer no Macdonald’s ou uma pizza em qualquer Pizza Hut. E a ânsia é tanto maior quanto a emergência e a preocupação com eventual cataclismo ou falência. Refiro-me à preparação das medidas, das boas medidas, de que uma organização precisa para funcionar. Quase não valorizamos o trabalho com as estruturas, embora devêssemos!

Luís Martins
12 Jun 2012

Como quando começamos a construir a nossa casa. Ainda se não levantaram as paredes, já gastamos uma pipa de massa e não vemos o dia em que a casa fica pronta. Mas, um bom empreiteiro não prescinde das bases, dos fundamentos para a construção que se seguirá segundo o projeto aprovado por entidade competente.
Aliás, a equipa de fiscalização, se a houver, não permitirá que assim não seja. No país, as coisas passam-se mais ou menos assim.
Os alicerces não se veem. Nunca aparecem na fotografia. Contudo, são o mais importante de uma casa. Se houver negligência ou menos cuidado na sua preparação, todo o edifício fica em causa. Ainda mais, se esse edifício tiver uma certa dimensão. Há até que haver um reforço nesse caso. Enquanto isso acontece, tem-se a impressão de que a obra não avança. Que não sai do sítio. Contudo, está a fazer-se o principal. Se os alicerces ficarem seguros, ficamos mais tranquilos de que o resto também o vai ser. Vamos poder trabalhar ou dormir descansados, consoante o destino que for dado ao edifício. Em zonas sísmicas, esse cuidado é ainda mais presente, para que os edifícios resistam.
Assim é num país. Sem alicerces fundos e firmes, não há segurança nem na governação nem no futuro dum povo. Os êxitos podem só ver-se mais tarde, mas serão sustentáveis. Duvidemos de êxitos muito rápidos, só para impressionar. Daqueles utilizados para abreviar a festa, para antecipar o que não está ainda consolidado. Por uma questão de verdade, a coisa que se quer pode e deve ser mostrada, mas só no fim do trabalho. Só quando estiver pronta. Pode sempre acabar por ser um elefante branco ou até um elefante invisível, por simplesmente não chegar a ser. Infelizmente, o país tem muitos exemplares, de uns e outros. Nenhum gratuito. Nem os segundos.
 Quase nunca valorizamos o trabalho de sapa, de base, de compreensão dos processos, das alternativas, da análise e controlo dos procedimentos utilizados e de outros aspectos críticos antes da tomada de decisão. A febre de apresentar obra costuma encurtar o tempo de amadurecimento do processo, o que acaba por ser prejudicial para o dono da obra. Na verdade, quem quer obra muito rápido dá um sinal de fragilidade ao mercado, que este aproveita para esticar orçamentos e os negócios com o Estado.
Portugal vive em cima de um vulcão de dívida. Sem o trabalho de sapa e a paciência na construção de alicerces, de acordo com as melhores práticas, a qualquer momento um sismo financeiro poderá abalar e fazer ruir toda a sua estrutura. Mas, ao seguir as melhores recomendações e confortados pelos nossos credores, o país estará protegido no caso de eventual vibração ou réplica de maior amplitude na escala de rating.
Atacar o Governo por não ter conduzido ainda o país à prosperidade, é não fazer ideia do que está em causa e desconhecer a verdadeira dimensão do problema. O governo de Passos Coelho quer implementar um programa para a saída da crise com alicerces, não em cima de qualquer betão doente. É verdade que desejamos que esse trabalho seja rápido, mas devemos dar tempo ao tempo. Até por que se torna necessária uma inspeção profunda aos alicerces e pilares da obra já construída. Só depois as paredes deverão começar a levantar-se e veremos que assentarão bem melhor do que se não tivessem sido inspecionados os alicerces e aplanadas as bases que as suportarão.
É claro que a estratégia exige sacrifícios, mas não é altura de fugir aos custos com as boas fundações, ao contrário do que muitos pensam. Por agora, a atenção do país deve ir ainda para os alicerces. Fica o aviso do professor João César das Neves na sua penúltima crónica: “É bom lembrar que a ‘década perdida’ da economia portuguesa (já quase década e meia) foi totalmente dominada por políticas de crescimento e emprego”. Está tudo dito. Sobre os alicerces duma obra que deve ficar segura. E da economia do país que se quer sustentável, para não voltar a ruir tão cedo.




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