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Caminhos e atalhos

Já ouvi dizer que não são os muito pobres os mais afetados pela crise, mas que a classe média é a principal vítima do sistema, sobretudo pessoas que pensavam ter fugido à pobreza e, de repente, nela caíram. Falamos também muito em pobreza envergonhada, que será uma pobreza desiludida. Já são muitos os que concluíram que Portugal mudou demasiado depressa e os governantes se atrapalharam, confundindo o essencial com o desejável, tomando opções que geraram elas próprias a crise.

J. Carlos Queirós
12 Jun 2012

É fácil responsabilizar quem não governa, mesmo quando um olhar sobre os últimos trinta anos nos esclareça sobre a contribuição política daqueles a quem confiamos o destino do País e que sabemos representavam, ontem como hoje, os dois maiores partidos da área do poder. Recordo uma frase  no Diário Económico, em janeiro de 2011, julgo que do Professor Manuel J. Nunes. A uma pergunta sobre o que fazer para melhorar as hipóteses de Portugal no leilão da dívida que se aproximava, terá respondido mais ou menos isto: ”Chegou a altura de invocar a Nossa Senhora de Fátima”.
Foi a partir do início de 2011 que, verdadeiramente, começámos a sentir dificuldades, pois antes diziam-nos que Portugal caminhava para o sucesso e as dificuldades estavam controladas. De repente  a necessidade de ajuda externa surgiu como decisão inevitável, surgiram notícias sobre os mercados, e países como a Alemanha e França apareceram como referências importantes para o nosso futuro. E se a Europa foi opção e o euro evolução, temos agora certezas sobre o nosso endividamento e o preço a pagar, com reflexos imediatos na estabilidade económica que julgávamos existia.
Desemprego a níveis nunca antes pensados, fome e miséria que julgávamos ter desaparecido muitos anos antes, apelos à paz perante uma indignação crescente e justificada. Portugal vive dos piores momentos da sua história. Temos consciência das dificuldades, acreditamos no futuro, mas precisamos de bons exemplos de quem tem o poder de decidir, para que a motivação sirva de alavanca para o desenvolvimento do país. Não chega impor sacrifícios aos mais fracos, retirar regalias e direitos a quem trabalha ou trabalhou, a pensionistas indefesos e sem representatividade, porque apesar de se prometer justiça social e participação coletiva nos sacrifícios, o Governo prometeu rever parcerias público-privadas e ainda não consta tenha dado sinais de o ter feito. São precisos sinais que demonstrem aos cidadãos que não existem portugueses de classes diferentes. O tempo passa e a retoma vai sendo adiada. Falaram-nos em 2014 e agora 2018 ou ainda mais tarde.
Curiosamente, mesmo economistas próximos do poder já admitem como muito difícil uma retoma económica acima dos 2% nos próximos anos, o que equivale a dizer que a crise vai continuar e o décimo terceiro ou décimo quarto mês partiram de vez. Mesmo que ninguém goste de falar em inevitabilidades ou em pessimismo exagerado, a verdade é que os indicadores de referência não são favoráveis e as boas notícias deixaram de fazer parte dos noticiários e discursos. Mesmo os que apontavam a agricultura, as pescas, os serviços, como importantes setores no combate ao desemprego, já admitem que isso não vai constituir uma resposta significativa. A escolha de novos caminhos ou atalhos é assim uma incógnita a resolver nos próximos tempos, sendo certo que teremos de encontrar alternativas e abandonar o fatalismo que, aos poucos, parece ter invadido todos os locais e todas as conversas.
É importante o Governo dê sinais de vontade política e coragem para enfrentar todos os poderes que possam obstar ao desenvolvimento de políticas justas e capazes de motivar os portugueses perante o desânimo que atingiu os cidadãos nos últimos tempos. A sustentabilidade do sistema de segurança social, o combate à pobreza, as medidas que visem criar emprego, o relançamento da economia, são certamente áreas que devem merecer particular atenção no momento em que vivemos. Reduzir custos nos transportes, nos combustíveis, na água ou na luz, são incentivos com reflexos imediatos e capazes de motivar uma economia estagnada.
Afinal o nosso problema continua a ser de opções políticas, de escolhas certas e de vontade para mudar. Os portugueses precisam de sentir que o Governo quer realmente o melhor para todos eles.




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