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Troca sem baldrocas

Tive um grande amigo que já partiu para o Pai há mais de vinte anos. Sempre bem disposto, sempre pronto a contar uma fina piada ou uma história de vida, que levava os outros a refletir, a exercitar a inteligência, a concordar. O Padre Trocado Netta faleceu em Braga e jaz na Póvoa de Varzim, sua terra natal.

Artur Soares
11 Jun 2012

A propósito de carenciados e de velhinhos, disse-me um dia: “Se a Igreja, principalmente os leigos, resolvessem um dia fazer greve aos altares, à vida espiritual e à ação social que a Igreja faz, seria um caos e até os governantes abanavam, como as canas agitadas pelo vento”.
É evidente que o bom Padre Trocado Netta sabia que greve na Igreja, nunca. Apenas conversávamos. Mas há dias atrás, o nosso Arcebispo disse uma grande verdade, mais ou menos assim: “Nunca as Santas Casas fizeram tanta falta como hoje”. A Igreja, usando “a mão invisível” como o Evangelho ensina, sente e vê os carenciados e sabe onde estão os velhinhos da sua comunidade.
Assim, aproveito a compreensão e a paciência do meu bom leitor, para afirmar que vamos entrar num período muito difícil para os velhinhos, sobretudo. O verão aproxima-se, os alunos e os pais agitam-se a pensar nas férias e, nos meses de julho e agosto, tantos destes meninos irão assistir a seus avós serem transportados em esquifes ruidosos para os hospitais, a fim de serem internados e só serem recolhidos quando a família terminar as férias.
Não inventamos. Conhecemos as situações e defendo que escrever é matar o mal do mundo. O punho de quem escreve, o sol não lhe pode criar crateras e o mau tempo não o pode corromper. É preciso que a insensibilidade e a falta de amor pelos idosos tombe, como o pássaro, pelo disparo de uma fisga.
Conhecemos, bem conhecido, os maus tratos a idosos e o aparecerem mortos dentro de suas próprias casas. Entre nós, ultimamente, é vulgar. Quem o desconhece? Um, até foi encontrado morto, ao fim de oito anos, dentro de casa!
Parece-me que a Terra em Portugal gira ao contrário. Assim sendo, por que não se faz uma experiência de troca sem baldrocas? Por que não colocamos os nossos idosos nas cadeias e os meliantes e os delinquentes nas casas dos velhos?
Efetuando-se a troca, os idosos teriam todos os dias acesso a um duche, lazer e passeios; teriam medicamentos e médicos, regular e gratuitamente, e estariam permanentemente acompanhados; teriam refeições quentes a horas e não teriam de pagar renda pelo alojamento; teriam direito a vigilância e teriam por isso assistência imediata sem pagarem um tostão; teriam camas mudadas e lavadas e a visita de seus familiares, bem como acesso à biblioteca e à terapia física/
/espiritual; teriam produtos de higiene pessoal, computador, televisão, rádio e chamadas telefónicas em rede fixa; e, entre muitas coisas mais, teriam apoio de psicólogos, assistentes sociais e por aí fora.
Por outro lado, nas casas dos idosos, os delinquentes e meliantes viveriam com 200 euros numa mísera habitação, a pedir obras há mais de 50 anos, e teriam de confecionar a comida, tratar da roupa, viveriam sós, esquecer-se-iam de comer e não teriam ninguém que os ajudasse. De vez em quando seriam vigarizados, assaltados ou até violados e, se morressem, poderiam ficar meses ou anos à espera de fazerem a viagem de turismo final. Morreriam após meses de espera de uma consulta médica ou de uma operação cirúrgica e não teriam ninguém com quem desabafar e muito menos queixarem-se. Tomariam um banho uma vez por mês, ou ainda mais tarde, sujeitando-se a não haver água quente ou a caírem na banheira sem poderem chamar por ninguém. Passariam frio no inverno, porque a reforma de 200 euros não chegaria para o aquecimento, e o único entretenimento diário era verem telenovelas, desgraças, notícias promotoras entre amigos, gays devidamente organizados com programas televisivos e o Goucha diariamente de sapatos brancos, misturado com o castanho.
Advogo, sem a mínima dúvida, a troca. E por que não fazer um referendo disto?
O problema é grave, demolidor e provoca medo. O individualismo e o egoísmo são selvagens e não podem ser sempre os mesmos “a dar e a serem voluntários”. Conheço hospitais, cadeias e lares para idosos. Nestes locais “a dar e a serem voluntários”, nunca encontrei ao serviço dos carenciados e dos idosos, Conservadores, Socialistas ou Monárquicos. Encontrei sempre e só, cristãos.
Falar de amor, a muitos provoca risadas. Além de outras, existe a insensibilidade, a arrogância e o desdém pelos outros. Mas a verdade é uma: às casas dos idosos sós, já lhes chamam as “salas dos recusados”.
Conta-se que a um santo, um dia lhe apresentaram um sábio. “Que nos ensine”, respondeu. Depois apresentaram-lhe um santo. “Que reze por nós”, pediu. Noutra altura apresentaram-lhe um líder político. “Que se coloque à nossa frente e nos governe com juízo e justiça”.




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