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Era uma vez um diabético

A diabetes é uma doença crónica caracterizada pelo aumento dos níveis de glucose no sangue, sendo a consequência de defeitos na secreção de insulina, na ação da insulina ou o resultado de ambos os fatores. É uma patologia cada vez mais frequente na população mundial, prevendo-se que, em 2030, atinja 366 milhões de casos, um número bem acima dos 171 milhões que padeciam da doença no ano 2000.

Luís Sousa
11 Jun 2012

Portugal não foge à regra e, infelizmente, tem-se verificado um incremento ao nível da prevalência da doença, atingindo no ano de 2010 cerca de 991 mil pessoas, ou seja, cerca de 12,4% da população entre os vinte e os setenta e nove anos. Estes números são, sem dúvida, preocupantes, na medida em que fazem da diabetes um verdadeiro problema de saúde pública para o século XXI que merece todo o nosso enfoque.
O aumento do número de casos de pessoas com diabetes, nos últimos anos, encontra explicação sobretudo nas mudanças culturais que ocorreram na sociedade, aliado ao sedentarismo, a erros alimentares cada vez mais disseminados, ao aumento da obesidade, entre muitos outros fatores. Em Portugal, 90% da população com diabetes tem excesso de peso, facto que atesta bem a relação entre esta patologia e a obesidade. Aliás, sabe-se que uma pessoa obesa apresenta um risco três vezes superior de vir a desenvolver a doença em relação a uma pessoa sem excesso de peso. Outro fator que pode explicar o incremento no número de casos de diabetes é o envelhecimento, cada vez mais notório, da população portuguesa ao longo dos últimos trinta anos. Na verdade, mais de um quarto das pessoas entre os 60 e os 79 anos tem diabetes (27,1%), valor bem acima da prevalência da doença na população mais jovem.
Com os dados supracitados, retirados do Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes “Diabetes: Factos e números 2011” disponíveis gratuitamente no sítio da Direcção Geral da Saúde (www.dgs.pt), podemos tomar consciência do peso crescente que a diabetes assume no panorama nacional.
Da minha experiência enquanto médico, tenho a sensação que uma boa parte das pessoas não tem bem a noção do que é a diabetes. A maioria associa a doença a uma alteração nos valores da glucose no sangue e pouco mais. Não sabe que a diabetes pode causar cegueira e ou insuficiência renal terminal. Poucos são os que sabem que esta patologia pode conduzir à amputação dos membros e contribuir para a ocorrência de acidentes vasculares cerebrais ou enfartes do miocárdio. Pouca gente sabe também que, no ano de 2010, foram 4744 as vítimas desta doença, a que corresponde cerca de 4,5% do número total de óbitos.
Já assisti a um caso de um
doente que, após quinze anos desde o diagnóstico da diabetes, já era tratado com insulina, apresentava complicações da doença nos olhos (retinopatia) e nos rins (nefropatia). Tinha insuficiência renal e, por isso, fazia hemodiálise três vezes por semana. Como se isso não bastasse, tinha-lhe sido amputada uma das pernas devido à presença de feridas crónicas no pé associadas a insuficiência vascular periférica. Em poucos anos, a diabetes conduziu este senhor de meia idade a uma condição de muita fragilidade, na medida em que o fez perder parte da acuidade visual, a função renal e um dos membros inferiores, arrastando-o para uma cadeira de rodas e condicionando-lhe largamente a qualidade de vida.
Este é um caso, felizmente pouco comum, que ilustra bem o alcance que uma doença como a diabetes pode ter num indivíduo. Com este exemplo não pretendo alarmar ninguém. Acima de tudo, pretendo alertar para as consequências possíveis de uma doença tão comum. A diabetes não é meramente uma alteração analítica. É um problema de saúde que, se não controlado, desencadeia alterações sistémicas em vários órgãos do corpo e que, por essa razão, merece da parte de todos as maiores cautelas, quer seja a preveni-la, quer seja a tratá-la. Como diz o ditado, «mais vale prevenir, do que remediar».




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