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Contágio grego

Já aqui o dissemos uma vez, e vamos voltar a dizê-lo com mais veemência: a Grécia pode estar à beira de uma ditadura militar. O rastilho social já teve o pavio maior e tudo lá se assemelha a um barril de pólvora que, a cada momento, pode rebentar. Ou a Europa percebe isto enquanto é tempo, ou pode a democracia grega acordar estremunhada com as armas à cabeceira.

Paulo Fafe
11 Jun 2012

As ditaduras militares sempre se fizeram, ou melhor, sempre se impuseram, em momentos de grandes descontentamentos sociais. Eles mesmo, se igualmente descontentes, não são pacientes por muito tempo. Basta, então, que um “Gomes da Costa” dê o grito do salvamento pátrio e tomarão conta do poder. Os políticos serão banidos da cena da coisa pública, ostracizados e vilipendiados pelas populações, e dar-se-á sem mais a aceitação tácita dum regime forte que ponha as coisas  na ordem.
Foi assim em Portugal, após o descalabro das contas públicas da primeira república, é assim em toda a parte do mundo onde os políticos, pelas mais diversas razões, individuais, de lóbis ou partidárias,  não se entendem. Se isto vier a acontecer na Grécia, já esteve mais para cá do que para lá, os culpados são fáceis de apontar e identificar.
A Europa  não é, não será nunca, uma união enquanto não tiver em seus fundamentos a alma europeia, enquanto cada nação olhar mais para si do que para os outros, onde os nacionalismos tiverem mais força que a solidariedade, onde cada um seja mais eu do que o parceiro. Eu sei que os fortes economicamente olharam para os mais fracos como simples balcões de venda de seus produtos e nunca os quiseram como concorrentes em mercado comum. Por isso, impuseram a Portugal acabar com as pescas, com a agricultura, com a construção naval. Porquê? Porque éramos  concorrentes com a Espanha nas pescas, com a França na agricultura, com a Alemanha nos estaleiros e em outros campos. A concorrência de Portugal era pequena comparada com estes colossos, mas sempre eram concorrentes, além de que era uma questão de coerência política e esta resumia-se a isto: onde houver um a produzir, os outros devem ser consumidores. E os nossos caíram na argola; como todo o anão julga que escapa à sombra do gigante, e sem se recordarem da história da panela de ferro e da panela de barro em vereda estreita, assinaram com prazenteiro à vontade, pompa e circunstância, a integração de Portugal na comunidade europeia. Sou por uma Europa Unida, mas solidamente agarrada pela solidariedade e não por uma Europa interesseira dividida em nacionalismos. E por causa disto, e disto não querem eles falar francamente, é que Portugal e outros países pequenos se encontram na situação económica em que estão.
Se o projeto europeu falhar, abrem-se as portas às ditaduras. A culpa não é só de quem se ajeita, é também de quem se põe a jeito. E a ditadura grega pode contagiar Portugal. O contágio económico causará muita pobreza, mas o da ditadura causará muita maior vileza. E é deste contágio que tenho medo porque já vivi num regime forte e não queria voltar a viver noutro.
Ninguém me diga que não é possível voltar à ditadura. É sempre possível tudo acontecer, até acabarem as democracias, quando estas, em vez de serem mães de todos, se tornam madrastas de muitos. Aos políticos europeus cabe darem as mãos numa verdadeira Europa solidária se não quiserem acabar com as democracias em curto espaço de tempo. Oxalá não façam da Europa um prato de sobras democráticas.




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