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A confiança básica na fé

Escrevi, na semana passada, que o carinho e intimidade com que Bernardo de Vasconcelos falava de Deus, como se o tocasse na sua vida, me fazia lembrar Santa Teresinha do Menino Jesus, tão semelhantes que foram na simplicidade, na espontaneidade e na confiança básica na fé.

M. Ribeiro Fernandes
10 Jun 2012

Este conceito de confiança básica na fé decorre da aplicação, no campo da Teologia, da noção de confiança básica na relação materno-infantil, desenvolvida por Erik Erikson, judeu alemão, da Escola Psicanalítica de Viena, emigrado para os EUA na altura da perseguição nazi, ao elaborar o seu estudo “As oito idades do homem”. Hans Kung transpôs esta ideia para a compreensão da génese da fé. Efetivamente, não se pode entender o processo da fé fora da representação da relação de confiança e intimidade entre duas pessoas, do homem que procura Deus como seu Pai e Deus que se revela ao homem, a quem trata como filho.
1. Esta espontaneidade e simplicidade no desenvolvimento da fé decorrem basicamente da representação de como foram vividas as primeiras experiências de relação-básica materno-infantil. Não se trata de nenhum determinismo que se sobreponha ao sujeito, mas das bases afetivas e intelectuais que vão servir de padrão ao seu modo de agir e de relacionar. A confiança básica é uma relação de afecto entre mãe e filho quase corporal, tão verdadeira e tão espontânea que nem é pensada nem é intencional. Nasce espontaneamente do coração. Já repararam como uma criança reage a uma pessoa em quem confia mesmo? Corre para ela e atira-se para os seus braços, sem qualquer reserva e sem medo de cair. Mas, não faz isso com outras pessoas. Esta é uma forma expressiva de confiança básica.

2. Quando existe esta confiança básica, há uma comunicação verdadeira e autêntica de afeto entre mãe e filho, que se exprime, do lado da criança, comendo melhor e com mais gosto, relaxando os intestinos, dormindo como um anjo. À medida que vai crescendo, terá mais facilidade em se separar da mãe, quando ela vai trabalhar ou fazer qualquer atividade, porque a sua figura já foi por ela introjetada como objeto de segurança e de confiança. Ela sabe que a mãe a vem buscar. Aprenderá depois a relacionar-se mais facilmente com os outros e a ter confiança nos outros, porque a experiência que viveu na relação com a mãe vai servir de padrão para as relações com os outros. Não se tornará uma pessoa desconfiada, mas colaborante e franca. E aprenderá mais facilmente a amar, porque só quem foi amado é capaz de perceber como se ama. Há adultos que falam do amor como de um objeto qualquer.
Pela linguagem que usam, vê-
-se se essa experiência de base teve ou não significado para eles. É que não é a quantidade de gestos de carinho que dá origem à confiança básica, mas a qualidade da relação materno–infantil.
3. Mais tarde, à medida que for interrogando sobre o sentido da sua existência e descobrindo que há algo mais para além de si, a noção de descoberta da transcendência de Deus vai emergir moldada a partir desta experiência vivida de confiança básica. Deus será a figura maternal/paternal que o transcende, do lado de lá do que é visível e que o coração adivinha. Dizer que o coração adivinha não significa que a fé seja irracional. É a inteligência que vai procurar entender a fé. Aqueles que disseram que a religião não passa de uma projeção da mente humana para encontrar uma evasão para os seus problemas não entenderam nada do que é o homem. A descoberta da fé é a descoberta dos horizontes do espírito que se abrem diante do homem que cresce e procura para além de si. Todas as religiões (as autênticas, claro está, não aquelas que se fazem para ganhar dinheiro) são uma clareira de procura espiritual para além de si. São um sinal de crescimento interior.
Da experiência de sentido de confiança básica na figura materna e paterna, essa procura alarga-se para as raízes do sentido da sua existência. A religião torna-se uma realidade viva na procura de sentido da vida. E quando a descoberta de Deus se insere na dimensão dessa experiência de base de confiança na figura materna (e paterna), a fé em Deus torna-se também um ato íntimo, quase familiar.
Bernardo de Vasconcelos pode ser um bom exemplo para se apreender melhor esta noção de confiança básica na fé. E também para ajudar a compreender como tantas chamadas crises de fé nunca chegaram a ter raízes humanas de fé.




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