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Dia 10 de junho – como chamar-lhe?

Batizar, rebatizar o dia 10 de junho é uma longa história. Atualmente (até quando, não sei, nem faço futurologia), chama-se: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nele se assinala a morte de Luís Vaz de Camões em 1580 e é (ou será?) feriado nacional de Portugal.

Maria Fernanda Barroca
9 Jun 2012

Durante o regime do Estado Novo de 1933 até à Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, era celebrado como o Dia da Raça: a raça portuguesa ou os portugueses.
Na sequência dos trabalhos legislativos após a Proclamação da República Portuguesa de 5 de outubro de 1910, foi publicado um decreto, em 12 de outubro, estipulando os feriados nacionais. Alguns feriados foram eliminados, particularmente os religiosos, de modo a diminuir a influência social da Igreja católica e laicizar o Estado.
Neste decreto ficaram consignados os feriados de 1 de janeiro, Dia da Fraternidade; 31 de janeiro, que evocava a revolução falhada do Porto, e portanto foi consagrado aos mártires da República; 5 de outubro, Dia dos heróis da República; 1 de dezembro, o Dia da Autonomia (Restauração da Independência) e Dia da Bandeira; e 25 de dezembro, que passou a ser considerado o Dia da Família, laicizando a festa religiosa do Natal.
O decreto de 12 de junho dava ainda a possibilidade de os municípios e concelhos escolherem um dia do ano que representasse as suas festas tradicionais e municipais.
Atualmente, em homenagem a Luís de Camões, que representa o génio da pátria na sua dimensão mais esplendorosa, significado que os republicanos atribuíam ao 10 de junho, escapou ao camartelo governamental, mas não me espantava se qualquer iluminado antes quisesse José Saramago. Com o 10 de junho, os republicanos de Lisboa tentaram invocar a glória das comemorações camonianas de 1880, uma das primeiras manifestações das massas republicanas em plena monarquia.
O 10 de junho começou a ser particularmente exaltado com o Estado Novo, o regime instituído em Portugal em 1933 sob a direção de António de Oliveira Salazar. Foi a partir desta época que o Dia de Camões passou a ser festejado a nível nacional. A generalização dessas comemorações deveu-se bastante à cobertura dos meios de comunicação social.
Durante o Estado Novo, o 10 de junho continuou sendo o Dia de Camões. O regime apropriou-se de determinados heróis da república, não no sentido laico que os republicanos pretendiam, mas num sentido nacionalista e de comemoração coletiva histórica e propagandística.
Até ao 25 de abril de 1974, o 10 de junho era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça, este último epíteto criado por Salazar na inauguração do Estádio Nacional do Jamor em 1944.
 A partir de 1963, o 10 de junho tornou-se numa homenagem às Forças Armadas Portuguesas, numa exaltação da guerra e do poder colonial.
Dados de mão beijada os nossos territórios ultramarinos, sob a capa de uma autodeterminação que mais não foi senão mudar de colonizador (até aí Portugal e depois os vários movimentos de cariz comunista) não fazia sentido falar em Dia da Raça. O que aconteceu ainda muitos de nós nos lembramos: guerra civil, fome, prisões arbitrárias (mais e piores que as da PIDE), e Portugal reduzido a um «retângulo geográfico». 
 Com uma filosofia diferente, em 1978, o Dia 10 de junho passou a chamar-se Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Agora, com a obsessão do «aumento da produtividade», o Governo quer cortar nos feriados: dois civis e dois religiosos. Muito “acertadamente”, o Governo quer eliminar o 5 de outubro e o 1 de dezembro.
“Acertadamente”, porquê? Ao eliminar o 5 de outubro, agrada aos monárquicos; ao eliminar o 1 de dezembro, agrada aos republicanos.
A Igreja entrou em negociações, disposta a eliminar dois feriados religiosos; em princípio, o Corpo de Deus e o 1 de novembro. O Corpo de Deus, tradicionalmente comemorado numa quinta-feira, passa para o domingo seguinte, o que já acontece em muitos países; quanto ao 1 de Novembro, diz mons. Fábio Fabbri que «não se pode deitar fora», pois é a «festa da família». Quer dizer, nesse dia – Dia de Todos os Santos –, comemoramos os nossos irmãos falecidos que se encontram no Purgatório (Igreja Purgante), e os nossos irmãos já no Céu (Igreja Triunfante). 
Mas, cuidado, não ataquem o 15 de agosto – Assunção de Nossa Senhora, porque os portugueses, – muitos dos quais, «graças a Deus», são ateus! – não tolerarão que lhe ataquem a Mãe.




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