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Compasso do tempo

Há visões da vida que não se reduzem às dimensões do lucro, do luxo, das exclusivas aspirações materiais, da aquisição de coisas. Mudar de carro pelo modelo mais recente é experiência ainda comum. Mas adquirir um livro (para ler…) é fruta rara do nosso pomar.

D. Januário Torgal Mendes Ferreira
9 Jun 2012

Em momentos de subida do nível de vida, o fim de semana desencadeou em muitas pessoas o desejo de ter mais uma casa, no campo ou na praia. Mas comprar um disco ou um vídeo de relevo artístico ou assistir a um concerto, só por razões de gosto, ainda não é alargadamente significativo. Tais valores não constituem escola acabada. São emblemas de reduzido grupo que sempre encontrou nessas produções um modelo de maturidade, no sentido de se orientarem em ordem ao tónus espiritual que integra a unidade humana.
A espiritualidade da cultura diz respeito a dimensões que cultuam o pensamento, a sensibilidade, o gosto, o silêncio, o estudo, a solidariedade, a ciência e as suas múltiplas luzes, etc., etc..
Em livro recente de Alain de Botton (Religião para ateus, Lisboa, D. Quixote) são essas as sementes de valorização (laica e humana) que os ateus, segundo o autor, poderão encontrar nos sistemas religiosos.
Em discurso antigo, Vaclav Havel sublinha a ausência lamentável de uma espiritualidade (humana e laica, não excluindo Havel a religiosa, ele que não se confessava particularmente crente).
No terreno minado da situação portuguesa, o adubo da verdade e lealdade de maneiras, da claridade e clareza de imperativos éticos, das coesões de grupos cujo principal interesse é a justiça dos outros sofre a contrariedade de “toupeiras”, de sistemas mercantilistas, de clubes que se vão constituindo para rendimento próprio. A espiritualidade evoca-a Havel em texto clássico, por sinal dado à estampa no Público, em novembro 2004, do qual destaco estas passagens:
“as empresas globais, os carteis de comunicação social e as poderosas burocracias estão a transformar os partidos políticos em organizações cuja principal tarefa deixou de ser o serviço público para passar a ser a proteção de clientelas e interesses políticos (…) Os “media” trivializam problemas sérios; frequentemente a democracia parece mais um jogo virtual para os consumidores do que um assunto sério para cidadãos sérios (…) assistimos a um processo de globalização económica que escapou ao controlo político e, consequentemente, está a causar a ruína económica (…) A política mão é apenas uma tecnologia do poder (…) tem de ter uma dimensão moral”. Vem mesmo a calhar!
E quando se abafam os gritos do “coro dos escravos”, bem gostava eu de ouvir a opinião de Vaclav Havel, falecido em dezembro último!




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