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A cozinha cristã do Ocidente

Venho fora dos temas habituais. Não é, como pode parecer, o voltar às Crónicas Gastronómicas que desenvolvi durante mais de quinze anos no saudoso e tão camiliano Comércio do Porto (Panela ao Lume), no Diário de Notícias, no pós-saneamento dos 24 pelo sem carácter do Saramago Pilar Nobel (Pão Pão! Queijo Queijo!), Jornal de Notícias (Sopa e Dois Pratos), Notícias de Guimarães (Café e Bagaço).

Gonçalo Reis Torgal
8 Jun 2012

Bons tempos “neste passar do tempo que não volta!”, como canta Manuel Alegre de Coimbra, mas que é sentença sem espaço nem tempo. A razão virá em altura própria. Uso a tradução portuguesa (Relógio d’Água) da La Cocina Cristiana de Ocidente, Vigo, 1969, editada nesse ano em Barcelona. A Obra de Álvaro Cunqueiro insere, diz o autor na Introdução, em desordem, os seus “conhecimentos da arte culinária, e de vinhos, bem como invenções, o prazer de imaginar um duque de Berry numa galeria a comer uma lebre que nunca comeu ou um santo bretão a vindimar um muscadet que nunca vindimou, ou o conde-duque de Olivares a provar o gaspacho a caminho de Doñana com o fátuo Filipe IV, ou uns cónegos tarraconenses numa merendona de popets.” São mais de cinquenta artigos.
Tenho para mim que a Cozinha Cristã do Ocidente de Cunqueiro forma com a Fisiologia do Gosto de Brillat-Savarin e a nossa Volúpia de Albino Forjaz de Sampaio a trilogia base do saber gastronómico. Não se podem ignorar, mas suspeito que muitos opinadores do tema nunca leram e não sabem sequer que existem.
Se à conta divina do 3 juntarmos o 4.º fatal, desde Dumas, lembramos as Variações sobre a GASTRONOMIA, de Paulo Duarte, edição Seara Nova. É um livrinho de erudito louvor aos comeres e aos vinhos velhos com a crítica, premente, de que em Portugal se legisla, desde “o fim do séc. XIV, antes até”, sobre vinhos numa postura comercial, não de qualidade. Mas não foi por tais comentários que vim com Paulo Morais, mas pela saborosa estória que conta. Uma vez, em N.Y., diz, fui a um excelente espectáculo: boa música, belas Mulheres, cozinha estupenda. Gosto imenso das três coisas, mas em pratos separados. Sei o que isso é. Venho com a cabeça em água de uma aldeia festiva, onde a gastronomia é NADA e o barulho TUDO. Separemos pois, os pratos e justifique-se o ter vindo, honra foi, com D. Álvaro Cunqueiro de Mora e Montenegro. O meu Amigo Don Pepe Posada – profundo defensor da Cultura Galaico-Portuguesa, penando, como eu, de não ver País único o que a Geografia traçara do Noroeste do Golfo da Biscaia ao quase Mediterrâneo do Al Gharb. País sonhado por
D. Teresa, “Mãe de Reis, Avó de Impérios”, e a história negou – pronunciou, na homenagem a Don Álvaro, em Santiago, post-prandial discurso de nível tal, que Vos quero regalar com saborosas partes. Junto-me assim a essa Homenagem a Álvaro Cunqueiro. Cito: Era Don Álvaro Cunqueiro especialista em discursos “post prandium”. Depois de bem comido e melhor bebido, erguia a sua transcendental e rechonchuda carcaça e debaixo dos seus óculos de míope surgia a luz divina da inspiração dionisíaca. Citava feitos reais à mistura com imaginários, citava textos clássicos reais ou inventados e assim levava os comensais voando ao redor de um realista Mundo Mágico, a levitar envoltos nas nuvens das suas palavras e recender do vinho.(…) [Lembro] que enterro sem responsos, elegia ou sermão, não é enterro nem nada, é uma gaita. Todo o banquete ou repasto cerimonial e cunqueirano, sem discurso post-prandium, não seria homenagem em recordação, honra, glória e memória do Grande Mestre da Oratória que foi. (…) Pensar que o discurso post-prandium é um género menor (…) é tolice. [Basta] lembrar que a “Última Ceia” [fecha] com um discurso “post-prandium”. Aí nasceu a Missa, o Cristianismo, o Vaticano e foi o maior e mais importante discurso jamais pronunciado pelo Homem. O discurso “post prandium”, “contrarium sensu”, também está estudado como causa de úlceras dispépticas e cortes de digestão, quando há que aguentar um orador a dizer parvoíces que podem estragar um delicioso jantar. (…) [Não] Don Álvaro Cunqueiro. Depois de um bom repasto, escolhia um tema (…) e ajudava a placidez da digestão. Aí por 1973 (…) fomos a Mineira, onde provámos umas trutas. D. Álvaro, ao comprovar que eram do Viveiro Piscícola do Barbantinho, comentou pesaroso: “Há coisas às quais temos que renunciar…” (É o meu Quem não comeu já não come!) – gastronomia [d]a memória. Medito preocupado, que estamos atentando contra a identidade do galego, (…) afectados profundamente não só no aspecto físico quanto metafísico. Deixámos de ser lamúrias, nostálgicos, líricos e sonhadores, e somos reclamantes, protestantes, resmungões, parados e mal-humorados. Baixa a natalidade, cantamos mais em inglês do que em galego, temos mais imigrantes que emigrantes, e os nossos filhos andam em pitanças estranhas e forram-se nos “botelhões alcoólicos”, cubas livres, caipirinhas, daiquiris e mojitos. Penso que D. Álvaro Cunqueiro, na sua grandeza e à semelhança do Mestre de Jorge Manrique, vendo o panorama, “preferiu consentir en su morir”, melhor que aguentar um mundo de plástico e néon, despedindo-se com as palavras de Curros Enriquez, no Divino Sainete: “Se este é o mundo que eu construí, que o demo me leve”. Citei! Amen!




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