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Iguais e diferentes

1 Todos os homens são iguais. Todos possuem a mesma dignidade de seres humanos. Todos foram criados à imagem e semelhança de Deus. Todos são filhos do mesmo Pai e todos foram redimidos pelo sangue do mesmo Cristo. «O rei que está na Cruz nos libertou e com seu sangue a todos igualou», recordou um dia Almeida Garrett. 

Silva Araújo
7 Jun 2012

2. O facto de todos sermos iguais em dignidade não pode ser motivo para que, ao mesmo tempo, não reconheçamos sermos todos diferentes.
Tem-se acentuado muito a igualdade, mas há que tomar consciência, também, da diversidade. E uma das tarefas que se nos impõe é a de sermos construtores de unidade respeitando a legítima diversidade.
 
3. Uma das coisas em que somos diferentes é na capacidade económica. Nem todos possuem a mesma carteira. Há quem tenha mais e quem tenha menos. E sempre será assim.
Isto, porém, não pode justificar situações graves de injustiça, que as há. São um escândalo exagerados desníveis existentes na nossa sociedade. É imoral a existência dos exageradamente ricos e dos exageradamente pobres. São imorais certos ordenados como o são certas pensões de reforma. É imoral a existência de pessoas que desperdiçam enquanto outras buscam restos de comida nos caixotes do lixo.
A propriedade privada é um direito, mas não um direito absoluto. Sobre ela recai uma hipoteca social. Deus criou o mundo para todos e em circunstâncias extremas tudo é comum.
 
4. Uma das causas que está na origem do exagerado endividamento dos indivíduos e das famílias reside no facto de se ter acentuado a igualdade esquecendo a realidade da diversi-
dade.
Convictas da tal igualdade, pessoas há que se julgam no direito de terem o que outros têm, de fazerem a vida que outros fazem, esquecendo a existência de carteiras gordas e de carteiras magras. Se aquele tem uma luxuosa vivenda, por que é que não hei de ter uma semelhante? Se aquele tem um automóvel topo de gama, por que não hei de ter um semelhante? Se o meu vizinho pode fazer férias no estrangeiro, por que é que eu não hei de fazer o mesmo?
Levadas por estes e outros raciocínios, pessoas há que foram além das suas capacidades, endividando-se em excesso. Depois, surgem as dificuldades em pagar e em obter crédito. Assim aconteceu a nível individual e a nível comunitário. Assim aconteceu com o nosso Portugal.
 
5. Mas porque, além de diferentes, todos somos iguais, há necessidades básicas que todos devem poder satisfazer.
Nem todos podem ter carro, mas todos têm o direito de se poderem deslocar, por exemplo. Daí a necessidade de o Estado ou os municípios organizarem uma boa rede de transportes públicos a preços que todos possam suportar.
Nem todos podem ter uma luxuosa vivenda, mas todos têm direito a uma habitação condigna. Todos têm direito a uma alimentação saudável, pelo que os alimentos básicos devem ter preços acessíveis. Todos têm direito à assistência na doença, pelo que deve haver um sistema de saúde para todos. Todos têm direito ao acesso à justiça para verem respeitados os seus direitos ou serem ressarcidos de danos injustamente causados, pelo que a justiça deve estar ao alcance de todos. Todos têm direito a fazer férias ou a dar um passeio, pelo que deve haver programas para o lazer acessíveis aos menos favorecidos. Todos têm direito a uma educação que os ajude a crescerem como pessoas e não a serem formatados de harmonia com as opções ideológicas dos homens do poder, pelo que deve ser respeitada a verdadeira liberdade de ensino. A todos os que têm capacidade deve ser garantido o acesso ao ensino superior, pelo que é imperiosa a existência de um justo sistema de bolsas de estudo ou apoios semelhantes.
 
6. Onde vai o Estado buscar dinheiro para que os de menor capacidade económica possam ver satisfeitas as suas necessidades básicas?
Gerindo com muito critério os bens da comunidade. Cortando naquilo a que chamaram as gorduras do mesmo Estado. Mostrando ter uma correta escala de valores e deixando-se de projetos megalómanos ou obras faraónicas. Cortando nas mordomias, já que os mordomos não querem ser os primeiros a abdicarem delas em favor dos que mais precisam. Onerando com impostos a compra ou a posse de artigos ou objetos de luxo. Procurando que quem mais pode contribua para quem mais precisa. Dando o próprio Estado o exemplo de moderação nos seus gastos.




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