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Os peitos e as medalhas

E se, de repente, Sócrates (José) sobe ao palco das comemorações de um qualquer 10 de junho e dá o peito (largo e ossudo) à condecoração? Embora sempre havendo quem aplauda, o país real e sério (que paga impostos, vê o ordenado ou a reforma a esmifrar, passa fome e sofre com a austeridade) obviamente pasma e retruca:- Afinal, que país é este onde a incompetência, a demagogia, a arrogância e a mentira políticas podem ser premiadas?

Dinis Salgado
6 Jun 2012

Ora, isto pode acontecer porque é prática, desde o 25 de abril, o Presidente da República condecorar todos os ex-primeiros-ministros. E, pasme-se, com a mais alta das condecorações: a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo. Só dois ex-primeiros-ministros de dois governos provisórios (Pinheiro de Azevedo e Vasco Gonçalves) é que não foram agraciados.
A razão desta condecoração prende-se com os destacados serviços prestados no exercício de funções em cargos de soberania ou administração pública e na magistratura e diplomacia. E é sempre uma forma de puxar pelo brio da raça, fazendo chegar publicamente aos indígenas o exemplo dos que mais alto erguem e mais além levam o nome de Portugal.
Só que, no 10 de junho e fora dele, tanta tem sido a profusão de condecorações atribuídas que o comum dos mortais começa já a sonhar no dia em que, por escassez de peitos, subirá finalmente ao palco. Porque, como canta o poeta: condecoro presidente /e sabem porque razão? /por ter dado a tanta gente / tanta condecoração, isto já não passa de maleita nacional e, tal como a tradição, ter acesso, por exemplo, a uma mera comenda já não é o que era.
Pois bem, não me espanta que Sócrates (José), mesmo tendo deixado ao país um legado de escândalos, ilegalidades, miséria e dependência externa como não há memória, um dia, ao palco suba e dê também o pescoço à luzidia condecoração. Não será, espero, o atual presidente Cavaco Silva a dar-lhe o supremo gáudio e gozo da medalhação, mas, se em 2016, regressar a presidência socialista, certo e sabido é que a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo lhe não escapa.
O que nos levará com o poeta a resmonear:

Já chegou o dez de junho
o dia da minha raça.
Tocam cornetas na rua
brilham medalhas na praça.

Quem és tu, de onde vens?
Conta-me lá os teus feitos!
Que nunca vi Pátria assim
pequena e com tantos peitos.

Então, até de hoje a oito.




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